terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ei menino

ei menino
olha pra cá
não vá fugindo
é isso aqui ou nada
às vezes é melhor jogar a toalha
enquanto se tem a cara intacta
se se envergonha, não enfrenta
ei menino
conta-me um segredo
mas que não seja seu
que não aguento
ei menino
qual é a estrada que não dá no centro?
prefiro rodear as beiradas
tem coisas que eu não intento
ei menino

domingo, 18 de dezembro de 2011

Canção dedilhada

Ele me executa dedilhado
depois que me captura
entre as linhas de um texto
e me prende nas cordas
do seu instrumento
então me toca com dedos
de quem me decifra
e eu escapo ao vento
na sua voz de pássaro
e despertenço às cifras
voluteio no ritmo
e preencho o silêncio
com essência de flor

a música é de amor




Papo sobre o tempo

Nos dias nublados, silêncio,
E torpor, nos dias de sol.
É doce a chuva no inverno,
As noites de lua,
As estações.
No verão, há tormentas que assustam,
E quem repudie o vento.
Benditas marés que varrem
Os maus pensamentos.
Dos rios, raios de luz se catam
Com as mãos.
Fantástico fenômeno do universo,
Elementos do sobrenatural.
Imerge com o ínfimo,
Rende-se ao completo.
Sê pequeno e contenta:
Sua inteligência controversa
Não domina o clima,
Nem dita as correntes.
O Magnífico não te pertence.
Contempla.

analgésicos

acontecimentos que escapam de mim
rumam soltos por aí
analgésicos
pílulas prescritas que se engolem
sem receita médica
tomam-se com melodia a qualquer momento
como quem respira sonhos
e ri enquanto
caminha por vales secretos
entre virtumanos

My lord

My lord,
Escapaste de uma cena de filme,
Desses de época.
Sua palidez me inquieta.

De perfil, és bonito
E de fora, cândido e sublime.
Quem dos Beatles preferes,
Senão George Harrison?

My lord, poeta,
Prossegue.
Obscurece com tuas vestes
As lágrimas,
Impassível.

Anda ereto e leve,
Qual crista de ondas
Invisíveis
E     r  e  s  p  i  r  a  .
A vida não dá trégua.

My lord,
Não compreende,
Navega.

Amor de amante


Escutei aquele som
E num instante fiquei on
Uma melodia Freestyle
E palavras dizendo lugares
Dois olhos castanhos vidrados
E uma voz grave
O coração Tum Tum Tum Tum
Viajando nas notas
Se largando nas voltas da canção
E dos seus lábios frizantes

Os amantes
Nem sempre se tocam

A natureza retumbante
Das ondas viciadas
Entrelaçam em galhos
Música e letra
Orvalho sobre os carros

Tudo é romance
Entre as palavras
E os timbres não trocados

Os amantes
Nem sempre se tocam
Perfeito, o amor inventado                                                                                                         

Quizumba

Essas palavras de óchente que ocê diz, ó nega
No aceite do meu bem
Me atentam

Essa quizumba que ocê carrega, ó nega
Ginga por dentro
Apimenta o meu querer

Essas trança que ocê amarra nos cabelo
Ó nega
São meu tormento

Óchente a vida que enfrento
Pra te ter por perto

Em ti eu me aperto
E espremo em concreto
Esse seu não sei quê, que me interte

Ó nega, deixo aqui em verso
O teu beijo 

Vem pegar

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Tristeza de fim de ano

Eu carrego uma tristeza que aumenta com o passar dos meses do ano.
O molhado dos seus olhos me volta, com cândida insistência.
Cada coisa que eu aprendo, cada novo papel que represento, me alimenta esta tristeza, saudosa de um tempo ingênuo.
Esta tristeza que eu carrego não pesa, é como pena. Mas de vez em quando escapa uma no ar, voando ao vento.
E quando chega dezembro, ela assovia com lábios gordos no meu ouvido tristonho.
Esta tristeza de um tempo em que ser presa parecia uma maneira de driblar a solidão.
Mas hoje, neste chão de algodão, tão instável e delicado, místico e nostálgico, que anuncia o verão, sondam-me seus olhos cansados, faltam-me seus braços ao redor.
Prendo-me na liberdade e no amor pulverizado pelo ar de um lugar pra onde eu fui empurrada por suas mãos covardes.
Mas já não me abrigo em claustros. Meu ser cavalga pradarias, transcende os limites da moral.
E ama sem destino ou ilusão. Um amor quadriculado de minúsculos e infinitos quadrados vazios.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

No que eu acredito

Não vou acreditar no que você me diz, porque você o faz com palavras corretas, e com muitas delas, tudo o que sente por mim. Mas, por mais que eu não queira, acredito nas palavras que escapam de você, de sua pele, dos seus gestos, dos seus olhos atentos. Acredito nos seus passos que vêm em minha direção, e na sua atitude de ficar estanque, à minha espera, quando percebe ter se adiantado demais e se apartado de mim. Não acredito na exclusividade que você me promete, mas acredito nos dias que você me dedica e se abstém de tudo o mais e até se esquece do lugar em que está, pra me fazer companhia online. Não posso acreditar nas suas promessas e planos, no futuro que você me entrega, mesmo sem dominar. Mas acredito nestas sementes que você planta a todo momento e que rega com lágrima de emoção e esperança. Não vou acreditar em objetos ou coisas que nos prendam um ao outro, conveniências. Sequer em objetivos comuns, sociedade. Vou acreditar que sua emoção e sensibilidade, sua música e seu desejo de humanidade, nos conduzirá a uma dimensão maior, para a qual já rumamos. Vou acreditar no nosso aperto de mão, esteticamente improvável, e na candura desta união. E em Deus, que nos apresentou um para o outro neste momento de sonho, não se sabe se meu ou se seu, derretendo-nos juntos, como metal que se funde pra formar uma jóia que brilha, ou uma peça fundamental na engrenagem da vida. Portanto, não se preocupe em falar. As coisas em que eu posso acreditar, não são as vistas, nem as ditas. São as que transparecem sob as vestes e sob os sorrisos. As coisas que eu posso crer, são as que se evidenciam apesar de toda tentativa de disfarce.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

traição musical

estou te traindo neste momento
só tenho olhos e ouvidos pro Paulinho
e as palavras que ele diz me levam a uma casa
no pé da serra, rodeada de verde, vigiada
por pássaros de grandes asas
o telhado tocando o céu azul e alaranjado
e então eu vou entrando e abrindo portas:
corredores imensos, e segredos se abrem
e todos os cômodos estão tomados,
atmosfera densa de sonoridade, e isso me inebria
é música com poesia, numa linda voz masculina que não é a sua
estou a trair-te neste momento
perdoe-me mas é assim que eu escuto música
no instante em que me jogo nela
não há mais nada e sou exclusivamente apaixonada por suas notas
até que meus ouvidos não possam com o mesmo som
mas aí, a traição já está consumada
- alerto desde agora: há traições como esta que arrasto pra vida toda
esteja preparado e ciente
me aproprio das melodias por que me apaixono
e elas me acompanham num momento ou pra sempre
estrada afora, rs, ou mar adentro

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Posso ser

Posso ser um pedaço de sonho
Uma maça antes da mordida
Posso ser uma nuvem risonha
Uma estrela sozinha
Posso ser um amor platônico
E aquilo que você não alcança
A lâmpada da esquina
A moça da fotografia
O plano que não se realiza
Posso ser um passarinho raro
Que beberica no beiral da janela
Posso ser as cores apáticas
Da sua caixa de lápis
Aquela pintura em que você penetra
Tardes e tardes seguidas
Na pinacoteca
Posso ser aquele amor de infância
Que você não confessou
Posso ser o perfume da dama
Que acompanha suas noites
Posso ser a página do livro
Que você arrancou
Uma tarde de maio
Um desejo velado
Uma jura de amor
Posso ser o raio que se enxerga no horizonte
Numa noite de tempestade
Posso ser uma música suave
Que não te abandona
Posso ser uma colcha de retalhos
Uma cantiga, uma ficção
Posso ser uma cena de filme
Um docinho de aniversário antes do parabéns
Posso ser seu recorrente brocardo
Seu insistente refrão
Posso ser aquela chuva que não molha
A sombra que não se decifra
A chama da vela que não apaga
Posso ser uma letra num papel de carta
Uma imagem deturpada de verão
Posso ser um pôr-do-sol
Um bocado de feitiço
Um querer sem razão
Posso ser algodão doce na saliva
Uma imagem de televisão
Posso ser todas as coisas findas
E as que não se materializam
A eletricidade, o som
A felicidade, a imaginação
Posso ser

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Vive como escreve

Quanta bobagem
Não pensa
Vive como escreve
Sem vírgulas
Só muda as fases de linha
Como muda as frases
E de palavras quaisquer
Faze um verso
Um poema
Um universo paralelo
Uma passagem secreta
Um esconderijo
Caminha como quem canta
Esquece as verdades
Desliza
Patina sobre o gelo
Nada é tão seco que jamais escorregue
Não se atenha aos erros
São teus companheiros
Vive como escreve
Beija como quem navega o abstrato
Ou caminha sobre a água
Não esquenta
Se houver voltas estranhas
Em sequencia
Escreve como quem ama
E vive sem planos
Deixa estar
O poema mais belo
Como a vida
Também não se decifra

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

NÃO TENHO CONSCIÊNCIA NEGRA

Como escrever sobre uma consciência que não me pertence? Sobre uma negritude que eu desconheço? Não tenho nada nem perto de negro. A não ser, talvez, a íris castanha dos olhos, que eu gosto tanto. Talvez, quem sabe, também, os cabelos, crespos como uma esponja, black desde a infância, quando não era do “momento”, mas motivo de vexame, de desdém. Não tenho nada de negro, a não ser meu avô e tios morenos. Assim como não tenho nada de índio, apenas a mãe de meu pai, matogrossense. Não tenho nada que me lembre a senzala, apenas os dias em que fui apartada do grupo das loirinhas bem penteadas e, quietinha, fui chorar no banheiro. Não tenho nada de negro, a não ser aqueles dias no colégio em que eu ainda pensava que o M, símbolo de uma marca de calças desconhecida que eu usava, era o mesmo que vestia as modelos. Não tenho nada de negro. Talvez apenas aquelas lembranças de quando eu era menina e meu pai motorista de táxi. Apenas aqueles dias remotos em que a felicidade era uma barra pequena de chocolate depois do jantar, dividida em quatro. Não tenho nada de negro. Antigamente, talvez, aquela vontade que eu passava de comer bolo na cantina da escola, mas não tinha dinheiro. Ou os risinhos alheios acerca da minha roupa que não combinava no inverno. Não tenho nada de negro. Apesar de nunca ter passado fome, já passei vontade, já sofri preconceito, já fui segregada, não pela cor da pele, mas pelo jeito do cabelo, pela falta de moda, pelo olho comprido, pelo sentimento de inferioridade perante as mais bonitas ou pelos meninos esnobes, de carteira cheia. Não tenho nada de negro, como podes ver, não tenho nada de negro. Mas quando olho pra trás, como quase todo brasileiro, deparo com meus ancestrais miscigenados. E mais, quando olho no espelho, vejo que aquela criança de cabelos cheios, que tinha dó dos pais vindos de terra vermelha, e que silenciou episódios de bullyng porque era feia, sem sobrenome e tímida, além de tudo o mais que eu guardo, em algum compartimento trancado aqui dentro, sobre discriminação e apertheid, NADA MAIS É QUE A CONSCIÊNCIA NEGRA QUE EU NÃO TENHO.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Purpurina

este universo é mágico
despedaço-o com as mãos
em mínimas migalhas
purpurina sob os saltos
areia e átomos
em que estão suspensos corpos
o cosmos e a existência
minúsculos códigos e fórmulas
como o zero e um na informática
e as palavras em cadeia
do html
tudo está conectado
e têm dias em que a visão estende-se
e em que se escreve imerso
na poeira poética deste Mistério

Teus resquícios

Aprendi a escrever enquanto falo
Enquanto penso
Enquanto voa o pensamento
Aprendi com ele a explicar versos
A gesticular enquanto argumento
Justificando, enquanto crio
O sentido de cada vocábulo
Empregado no texto
Aprendi com ele a balançar a cabeça
E a escolher palavras
Sem o silêncio do instinto
Aprendi pras rimas um motivo
Além do coração
Além do invisível
E contorço as mãos
Vestindo de canção
O que, de poemas
Agora, são
Só resquícios

terça-feira, 1 de novembro de 2011

descaminhos


há constatações insensatas
constelações apagadas
corações consternados
braços e mãos cruzadas
há brechas delicadas
beirais floridos de medo
há verdades intangíveis
segredos ao toque das asas
há almas perdidas
em corpos desconhecidos
há desassossego por baixo
das vestes e do próprio ninho
há tristezas vindo
há sorrisos mortos
lábios cansados sorrindo
e janelas, portas e pedras
cantando caminhos tortos
pra nossas futuras pegadas

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Cidade perdida


Queria a presença legítima
De um tempo extra,
De um momento que exista
Entre o agora e o depois.
Viver as escolhas deixadas
Nesse instante embutido
No avesso dos panos guardados
Que não vestimos.
Ouço você me chamando,
Mas não atendo
...
(O real não deixa).
Vejo você pelo espelho,
Sua sombra na minha calçada.
Adianto seus cabelos brancos
Sobre minhas pegadas
E eu sempre a contar-lhe
Meus planos e queixas.
Mora entre nossos olhos
Uma cidade perdida.
O vazio das ruas desertas
E a ternura das coisas sonhadas
Por nós não vividas.
Queria permanecer neste espaço
Entre o seu sussurro e o meu suspiro.
Queria mais palavras,
Assuntos incontidos.
Vejo você chegar 
E, com um aceno de mão,
Resgatar-me deste lugar
Reservado a mentiras,
De amanhãs, impedido.

QUANDO A GENTE SABE CHORAR

Quando a gente sabe chorar, as pessoas não notam. As lágrimas caem habituadas, molemente. Não mancham, não tingem os olhos de vermelho que, de tão bem acostumados, também não incham. A maquiagem permanece intocada, a gente sabe como enxugar a água da alma sem borrar os cílios. Quando a gente sabe chorar, as lágrimas vazam faceiras, destemidas, pingam fartas sobre as coisas, mas não deixam marcas, nem rastro. Quando a gente sabe chorar, o outro não vê, não questiona: “ora, por quê?”. A gente chora como quem fala um palavrão ou espirra. Quem sabe chorar não se envergonha e não se esconde. Não é preciso. Quem chora convicto e sem medo é como se vestisse o uniforme cinza do pessoal da limpeza, atravessa os caminhos, invisível, as lágrimas compridas vestem-no inteiro, como um escudo. Quem sabe chorar não segreda, seus abismos ficam expostos, cheios de poças, das lágrimas em que se atira. Mas não importa, ninguém enxerga. Quando a gente sabe chorar, as lágrimas são como objetos no lugar ou fotos na geladeira. Depois de um tempo, a gente já não considera.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Filosofia do futuro

Há coisas que a gente sonha e que se realizam, como se a gente as tivesse escolhido. Mas há coisas que a gente sonha que somem no tempo, por caminhos, a gente não sabe por onde, perdidos. Porque há momentos em que Deus nos ouve e cuida, e há outros em que Ele nos deixa. É uma coisa muito doida pensar que o futuro será mais ou menos o que se idealizou que ele seria. E, ao mesmo tempo, concluir que esse “mais ou menos” não nos compete, e que não saberemos, jamais, exatamente, em que medida, ou quais, sonhos e partículas deles, irão se materializar. Os desenhos da existência são feitos de traços oblíquos, flexíveis e passíveis de se tornarem uma coisa que a gente nunca chegou a pensar, mesmo tendo-a sempre pensado, em partes.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tentativa de poema

Quero fazer uma poesia sem rimas, sem nenhum som, nenhuma lógica, nenhum pensamento. É possível fazer uma poesia-retrato? De momento? Como uma onda que quebra na areia, como aquele instante em que se sente ser a mais bela e a mais triste? É possível um poema daquele escuro minuto em que se fecha os olhos e se pede ao Universo um novo mundo, numa noite de réveillon? Eu quero um poema tão doce como uma música que encanta, apaixona, eleva, desperta na gente um transcender, uma amplitude inimaginável. Quero um poema que revele mais proximamente a delicadeza de um amor que nasce e nem sempre se materializa. Um poema é sempre uma tentativa de alcançar o mais profundo do ser, mas que, pra adentrar, não precisa cavar buraco, apenas apropriar-se de detalhes e retalhos da rotina. As florzinhas daquele vestido branco, molhados de água salgada, enquanto se pedia à Janaína a transformação de tudo. A solidão daquele copo plástico tocando os lábios com champagne originalmente francesa. O toque dos dedos viciados nos anéis dos cabelos novamente enrolados. Um olhar furtado, uma voz macia. Um cenário desconhecido, um planeta revisitado em sonho. Fazer um poema nublado como as imagens em sono, misturadas, tensas, ecléticas. Um poema perfeito e intacto como um amor platônico.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A vida é maior



A vida é maior. De todas as coisas e sentimentos, lembranças e pessoas, mágoas e pensamentos, dores, lamentos, amores. A vida sobressai. Sucedem-se os dias e as obrigações, as refeições todas e o itinerário da sobrevivência, dos cuidados mínimos diários. Conforme a vida segue, indiferente à nossa disposição de viver, o que fica em torno torna-se detalhe, apenas adornos esquecíveis. Permanecem conosco os motivos, algumas nuances e neblinas, aromas e idéias. Mas nem se sabe ao certo quais. A memória seleciona aleatoriamente os momentos que quer guardar. O mais relevante fica pra trás, as companhias imprescindíveis nos deixam, nossa essência se modifica. Porque a gente quer pensar que o que nos faz vivos é o amor, mas a gente vive porque a vida é maior. E isto é tão simples e animal, que a gente não se conforma. Mas a vida sobreleva-se até ao sentimento mais denso e às dores mais fundas. A gente quer justificar a vida, dar-lhe algum sentido. Mas a vida em si é o objetivo e, continuar, à deriva dos acontecimentos, sem escolha ou parada, é um enigma impossível de se desvendar.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

POESIA 35


Uma saudade poente entre os móveis:
Por baixo da cama, entre parênteses, nos sótãos d’alma.
Intermitente, o tempo outra vez demora
Quase um mês numa hora. Falta a calma.
Reanuncia-se a aurora no calendário
É aniversário, tudo se renova.
Gosto destes dias azuis, que às vezes chovem.
Em outubro, a primavera se instala.
É o tempo mais bonito do zodíaco!
É chegado meu exclusivo e irrenunciável reveillon.
Erro as teclas, o sono me toma. O relógio é implacável.
O que faz o amor são pequenos momentos. Convívio, cimento.
Faltam-me ouvidos e olhos
De se ver e de se ouvir. Estou frangalhos.
Sopro as velas com coragem, segue o barco.
A nau é frágil, apesar do esplendor,
E o casco, de matéria delicada.
Abaixa a proa, a maré que alterna,
Ágil como as ondas, flutua a embarcação,
Inunda-se a cisterna. Investigo.
Pois não me apraz o amor de mal contido!
Pretiro o integral a um bordado de fuxico.
Prefiro água e sal ao mel. Lágrimas fiéis ao mal
De doçura irresistível.
Caminho pela madrugada. O escuro me agrada.
Os vãos são bonitos e os pedaços. O vento dita.
Outubro se espalha: agradável e pungente.
Mais uma primavera, mais um dormente no trilho.
Segue a estrada, o trem apita,
Agora são trinta e cinco.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Poeta que nada

às vezes penso não merecer os versos
há tanto que não conheço
tantos autores que não desbravo
tantas palavras que esqueço
mas, se não me julgo suficientemente apta
perante os acadêmicos
ouso ser eu mesma
confiar no que é instinto
e que verso é conseqüência e causa
da essência idêntica
entre mim e tudo de mais bonito
que disseram, os filósofos que admiro
Cecília, Carlos, Jorge, Murilo,Clarice
e alguns outros poetas próximos
aos quais posso chamar: amigos

sábado, 24 de setembro de 2011

Versos da vida

Não gero meus poemas por encomenda
Depois que eles nascem
Entregam-se a quem os queira
Como garotas de programa que ainda se apaixonam
Voluteiam promíscuos, entre flertes
E envolvem-se com todos
São vulneráveis à posse
Beijam boca por boca
Como se fossem únicas
Entregam-se a juras
Dançam prostitutos, de mão em mão
Mas ainda que sejam de muitos
Guardam exclusiva emoção
São putas atrás de romance
Em vida de perdição
São de qualquer um, mas iludem
Quem os toma por seus, acredita que não

E ela se despedia com a boca arreganhada, sem dó.

Da cama, ela me olhava. Escancarada, repleta, pequena pra tanta bagagem. Transbordavam dela, meses e surpresas. Estava grávida de acontecimentos. E a distância escapava pelas beiradas, numa outra blusa de frio, num pedaço de coberta. Ela me olhava despudorada e insensível, com afronta. E com sua boca arreganhada e, vomitando roupas, dizia sem misericórdia que ia.
A despedida era aquilo! Uma mala grande e cheia, transbordando e sorrindo com dentes de zíperes maléficos.
O adeus era uma mala no meio do quarto: despudorada, inquieta e sádica.
Mas no peito, era mais. Era de se conter e se expandir, de se ignorar a indiferença confessa no desleixo da safada. Entre todas aquelas coisas futuras, sonoras gotas de chuva contrastavam, presentes. O prato da amargura estava de cabeça para baixo.
Que importava o aceno? Nunca se sabe ao certo para onde vai, apesar da partida.
O gosto das coisas varia, conforme o paladar.
Mas a mala não se continha, sorria sem piedade pra mim, como quem soubesse que eu represava lágrimas. Quase humana. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os pés

Os pés...
O que há neles, que dóem?
Os pés querem andar, caminhar
O que há neles, nos pés? Que dóem, dóem?
O nervo exaltado, inflama, dói o calcanhar
E no dedo do pé direito, a unha encrava
O que há nos pés? Que querem andar
Estreitos, encolhidos em sapatos
Em extremos caminhos sopapos
Dóem os pés, por que dóem?
O que dóem, nos pés de estar?
Dóem os seres sentados, gravatas
Escaninhos, mesas, divisórias
Dói o mar distante e a areia
Lá de fora, ventos e lugares nas solas
De sempre, os mesmos trilhos e veias
Dóem os estribos, por que dóem?
Os pares perdidos semeiam
O que há nos pés que eles dóem, dóem?
Se não dóem de ficar?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AMOR DE FIM DE MUNDO


Vou amar você como quem não quer nada
E viver essas noites à toa
Curtir as madrugadas de boa
E, sem pressa, em insones horas
Deitar meu rosto na sua face
Ignorando a alvorada e o dilema
De amar para sempre em instantes
Medidos de iminente ausência

Vou amar você à sombra
Como quem não tem o que fazer
E comer-lhe a fala e o hálito
Embebidos em beijos
Desconstruir seu argumento
Soprando-lhe o ar de suas próprias narinas
Desfiar fio por fio o raciocínio
Que é a rede onde deita
O tormento da sua partida

O amor que tem pra mim
É bonito demais de se ouvir
E cândido e tenro e triste
O amor que me tem estende-se
Como uma música de Jorge Ben
E eu vejo seus rodopios e medos e saltos
Num balé clássico-dramático
Imprevisível

Vou amar você assim
Como quem dança sobre o abismo
Num dia de tempestade e ventos que assoviam
E a cada passo, negociar com a morte
Mais um pouco de romance
Mais do inesquecível

Vou amar você como quem sabe a data
Em que o mundo encerra o expediente
E deixar que tudo aconteça, ou nada
Até que nos vença o desfecho, o destino

Um dom é desafiar o fim
E agarrar os minutos contados
O sonho impossível

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Perfume de pai

Fragrância de pasta de barbear
O escuro do amanhã nos meus pensamentos perdidos
A infância irrigava minha barriga prenha
E já me faltava o que eu ainda tinha
E o ar impregnado tinha o cheiro adocicado
De meu pai fazendo a barba às quatro da madrugada
Enquanto isso eu pensava o que seria
Depois de tornar-me arcabouço de outra vida
Pra trás ficava o rumor do aquecedor aberto
Enquanto a espuma deslizava n’água
A pele de meu pai ressurgia, jamais tão clara
Depois daquele dia em que nasceu em mim
Essa nostalgia do que ainda estava
Num perfume de barbear, que era madrugada

domingo, 4 de setembro de 2011

Natureza masculina

Um homem não precisa ter nada
O homem só precisa insistir
Ter paciência, jeito, carisma
Um homem não precisa ser bonito
Nem rico
Nem simpatissíssimo
Um homem só precisa de jeito
E persistir no intento
Descobrir os caminhos
Através dos quais
Alcançar seu desejo
Em se tratando de uma mulher
Basta ter paciência
Buscar atalhos, ficar de tocaia
Há sempre uma noite
No dia de toda gente
E o homem que estiver à espreita
Atrás das brechas pequenas
Por onde penetram o encontro
Ganha a parada
O homem não precisa ser nada
Mas precisa ser muito homem
Pra merecer a conquista
Que por ele espera em alguma esquina
Numa lágrima perdida
Ou num detalhe escondido
Da mulher amada

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

PESSOAS QUE SALTITAM


Têm pessoas que não vão
Perambulam de cá pra lá, de lá pra cá
Saltitando
Às vezes, só sombras brincalhonas
Sobre nossos passos
Mas seus traços preenchem lacunas
Ficam gestos e perfumes
Assuntos
A doçura profunda não se esvai com o tempo
Fica pro infinito
Às vezes numa cor azul
De olhos ou de águas
Outras em retratos
Eternizados na memória
Loucuras pequeninas
Cenários grandiosos
Entregas impossíveis que deságuam
Almas vulneráveis que se jogam
À vontade de não esquecer
Nem serem esquecidas
Deixam-se perpetuamente
Entre as coisas temporárias
Que ficam

domingo, 21 de agosto de 2011

TRATADO SOBRE A TRISTEZA


A tristeza é minha amiga e não se aparta por muito tempo. É uma companhia itinerante, que quando menos é provável, me visita, carregada da velha bagagem de sempre.Hospeda-se comigo, sem alarido, e sua estada me é familiar e serena. E até que ela se vá, eu me dedico a consolá-la somente.
Não tenho queixas a respeito dela. Ela não me trai jamais. Estar com ela é passear um pouco na madrugada, sem saudade do dia. É deixar-se existir sem a expectativa dos sorrisos ou do júbilo.
Encostar-me um pouco no fundo, recarrega minhas baterias. Quando vejo as coisas do alto, minha percepção é dúbia e me ilude. O que a tristeza tem de mais bonito é que ela não me derruba. E estar com ela sem alarde, me faz mais forte e mais capaz de seguir sem medo. Afinal, quem tem na tristeza uma amiga, não tem o que temer.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Era de amar


Uma cerveja
Lascas de queijo
Segredos contidos
Desejos-medos pelo ar

Viver é preciso
Deixar-se levar
Crer no sentido
Do obscuro

É enduro
A corrida da vida
A tentativa de algo mais

Outra cerveja
Pensamentos tão tenros
Como a novidade
De acreditar

Que o amor pode estar
Num curto momento 
E no surto lascivo
De se eternizar

É do futuro
O tempo perdido
Na era de amar

sábado, 13 de agosto de 2011

COLCHA PRO INFINITO

Cinza sua
Matéria crua sobre mim
Só ternura
Suas mãos puídas de alecrim
E tem no ar
Terra a planar
Qual passarozim
E pra encerrar
Flores de paz
Pra você seguir
Cinza sua
Colcha de rusgas
Pro infinito
A doçura é
Jardim de olores  tão sutis
E volto já
Pr’esse lugar
Perto de ti
E pra encerrar
Estrela a brilhar
Em cores mil
Cinza sua
Matéria crua sobre mim
Só ternura
Suas mãos puídas de alecrim

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Minha casa de nuvem


Minha maior dificuldade é o instinto. A magia de que sou feita, me sustenta e me extingue. O sobrenatural passa por mim e pára, faz casa. E o universo nebuloso das sensações e das premonições e dos sentidos, pode ser um labirinto. Quem entra comigo, às vezes se perde.

MILAGRES


Quando foi que passei a merecer os milagres?
Seqüências de acontecimentos mágicos, qual em sonho...?
Um dia, enchi-me de coragem e iniciei minha cruzada, farta de esperar seus sinais.
E, então, percebi que os milagres esperavam por mim, impacientes pra acontecer,
no lugar de sempre.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

JOGO DE INCERTEZAS


Não havia sombra sobre o sentimento enquanto a boca que proferia declarações de amor era a dele.
Mas, a partir do momento em que ela respondeu: _ também te amo, a lança da desconfiança triscou de dúvida sua certeza pungente de delírio.
E o amor, então, retroagiu, por medo de ser correspondido.
...
Ela, contudo, sabia que, apesar dele ter-lhe dito que a amava, podia ser que se esquecesse.
Mas que o amor era assim mesmo, às vezes ou sempre se esquece.


domingo, 7 de agosto de 2011


Sou tão católica quanto qualquer outra coisa
Minha mente gravita sobre todas as tentativas de decifrar o impossível
Calcifica-se, uma fé fluídica, com o seguir da vida
Em que se enraízam e se enredam as coisas mais longínquas
O incompreensível
E à medida em que se aparta a ambição de domínio
Mais se aproxima o sentido
De Deixar

Big Bang


Algo em morrer, parece bom
Não ser
Desvanecer-se em partículas
Reunir-se, em órbita, à origem
Transcendência

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Paraquedas

O encanto é como purpurina. Apesar do brilho, de textura tão fina, uma coisa tão delicada, tão facilmente pulverizada... Como é fácil desvanecer-se!
O limiar entre o real e o sonho, entre a coragem e o contentamento rasteiro, é indiviso, estreito.
O senso comum e o habitat seguro não conversam com o inesquecível. Pra pular de bung jump não é preciso asas, é preciso peito.
Pra ser feliz é preciso, antes, achar a saída dos labirintos que te reconduzem a si mesmo. Aqueles de que são feitos seres ímpares como os boêmios e os esposados.
Seres antagônicos dotados do mesmo defeito em pontas opostas. Enclausurados nas artimanhas do medo e suas defesas.
E, o ar, só merecem os sonhadores, os incorrigíveis, os apaixonados e soltos.
Paraquedas não se abrem à toa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

NARCISO



Das palavras que falo
Ouvem-se poucas
Minhas idéias são as internas
E não as ditas
Menos ainda, as ouvidas
O ouvinte escolhe
Entre os caminhos
O sentido possível
Aos seus frágeis ouvidos
O diálogo é qual o aprendizado
O que se quis dizer
Às vezes fica perdido
No espaço que separa
Um ser do outro
Na vala que faz, de cada alma
Uma trilha solitária e árdua
Apesar de acompanhada
Na insistente tentativa
De compreender , de alcançar
De aliar-se a um par 
Das conversas, caminhos se abrem
Em escolhê-los com cuidado
E fidelidade, faz-se o diálogo
Mas o alcance total é inviável
Não queira a compreensão integral
Só Deus sabe - e eu
O sentido das palavras que abrem
A estrada por que caminho
A pilastra em que se apóiam os detalhes
Que me conservam indivíduo
Alcançar-me é impossível
Explicar-me, portanto
Inútil, incrível
Das palavras que profiro
Tudo o que vê
São os destinos que dita
Pra seu próprio sentido
Narciso!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Arvoe arvre


Árvore-arve, ar-voe
Voe árvore, como ave
Arvoe arve. Voe
De casca dura
Grandes raízes
Não voa, árvore
Mas a nuvem anestesia
E o que não pode se alivia
Se tem amor
A miragem é companhia
Tudo é passagem
Mas na vontade
O galho que era árvore
Estica em asas
E alça vôo
Só o amor diferencia
Intuição de covardia
E a nuvem que anestesia
Tudo pode e alivia
Tudo chove e alivia
Torna ave, a melodia
E voa alto, em alegria
Por ser amor
Voa a árvore por magia
Com asas de passarinho
Pro seu amor
E o organismo que era outro
Liga-se em ímã
Na energia do puro amor
Voa árvore poesia
Avoe árvore ainda
Comigo arvoe árvore minha
Arvoe arvre
Arvinha minha
Comigo avoe em poesia
Porque é amor
Arvoe árvore maravilha
Que a viagem não é só de ida
Se você for

(Por mim e Marcio R. Lima)

A árvore e o passarinho


Tu andavas por aí, passarinho, com teus penachos empinados e teu andar saltitante, de galho em galho, florindo. Mas, de repente, encantaste-te com cascos gastos e falhas de uma velha e grande árvore, sobre um rochedo distante. Quiseste ficar por ali. Juntaste teus gravetos em ninhos e deliciaste-te sossegado, à sombra dela. Mas, um dia, aconteceu que de tanto enfiar-te nas fendas daquele casco, decidiste não mais voar, quis tornar-te árvore. E a árvore não pôde crer, que tendo você asas, invejasse seus galhos de cascas. Mas, depois que te aninhaste debaixo da árvore velha, teu voar parecia triste. E a árvore rechaçava: o que seria de ti, se os pezinhos que saltitavam, enraizassem? Se de tanto com ela trocar, virassem madeira de árvore? Então, propuseste dormindo, em sono de olhos vidrados que não dormem: - que tal se ela criasse asas? Mas não era possível, bichinho! – cada organismo faz sua viagem seguindo a vontade original, que rege o inalcançável. Então, ficaste passarinho, parado como um objeto manipulado, empoleirado nela, em estática. E, enquanto teu amor durava, tornavas-te parte daquele tronco, como cuco de relógio. Até que num dia bem lindo, uma brisa mais forte bateu na quina de teu bico e ouviste teu amor sussurrando baixinho, no farfalhar das folhas caindo: Amo-te, passarinho. Muito. Parta com tuas asas, serei sempre tua casa. A vontade é que faz possível, uma possibilidade. - E tu, que já sentias o corpinho e asas tesos e sem engrenagem, como um bicho empalhado, entendeste o amor que alcançaras. O encanto de ter-te encantado por uma árvore-árvore, é que aquele era um amor casa, e sempre que voltasses, poderias escarafunchar-te debaixo de sua copa cheia e viva. Não era um amor de ave, não era uma árvore-ave, não era uma arve. Era só uma árvore onde podias ancorar tuas cansadas asas. Então, sacudiste as penas, arrebitaste o corpinho e saltaste. Voaste para o vento e voltou tua cor e teu movimento. Mas teu amor ficou e, de quando em quando, voltavas pros calabouços tão ternos, da árvore que amavas.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ladrão de versos


tinha as pálpebras inferiores lisas, como um peixe, mas seu olhar astuto e seu assovio e sua cabeça miúda, que ele movia com pequenos solavancos, também me faziam lembrar um passarinho
‎tinha os cabelos anelados, cor de favo, que o envolviam como nuvens, e uma doçura branda, quase feminina, mas seus beijos suaves viciavam, como batata frita
‎‎tinha os lábios finos unidos numa meia-lua crescente, quase um sorriso. E em tudo o mais que ele tinha, a melodia escorria, alta, comprida, como um intenso carinho
tinha o perfume das coisas guardadas, que se conservam intactas, mesmo velhas. O olhar fixo, adiantado, que mal piscava, o nariz adunco, perto dos lábios, aperfeiçoando os sentidos
tinha a pretensão de ter asas, girar o mundo de bicicleta. Mas apesar de tudo o que tinha, era ladrão de versos e, do objeto de que eram feitos, se apropriava, moldava-se fácil em palavras
e ninguém havendo por perto, acampava entre as rimas, com sua paz de deserto, seu amor devagarinho

segunda-feira, 18 de julho de 2011

voava o amor como um pássaro


tudo era amor naquele momento e desde o primeiro momento porque a alma reconheceu-se e a alma não tem traços fixos mas contornos indefinidos flexíveis e o amor tem nomes variados muitos nomes e faces e se entristece quando sob pseudônimos vem e vai sem ser notado mas naquele dia e nos subseqüentes a mulher já sabia que a doçura contida em pequenos gestos e entre as ondas de pensamentos e sentimentos enredados em harmonia afinidade e companhia e entre dedos que se tocavam com calor e carinho o que se revelava era tão somente AMOR mas tinha o nome de ternura de doçura de laço cármico o amor naquele caso podia chamar-se amizade mas quis ser mais e foi e voou pra mais longe como um pássaro preto à beira do Amazonas e seu piado no silêncio um som mágico a alastrar-se por dentro das almas e a apertá-los com um laço indelével e perpétuo um laço trágico e eterno porque naquele caso o amor tinha tantos nomes e não se iria com o tempo nem com nada nele havia imagem canto poesia havia uma cena de filme compartilhada e o encontro inebriante de um passado contido pra sempre naquele pássaro que quase o atropelou mas depois veio alojar-se nos cabelos dela de onde ele respirou extasiado o reencontro consigo mesmo à margem do próprio espírito no dela unido num instante mágico

Placas tectônicas


Minha vida é um álbum incompleto. Ainda há muitas páginas em branco e figurinhas novas que eu nem imaginava. Tirei o cabresto e que surpresa: um mundo imenso ao meu redor. O que a gente esconde e o que a gente mostra... um furo na meia é melhor que seja descoberto logo. A gente nunca conhece as pessoas de verdade sem antes entrar em suas casas, abrir, pelo menos uma vez, seus guarda-roupas, inspirar o ar que ocupa o ambiente, afagar seu cachorro. Tudo revela o ser que nelas mora.
Pessoas covardes não me agradam. Nem as que não se decidem. Não me aprazem rostos amassados. Gosto de cabelos perfumados e roupas cuidadas, mesmo que antigas. Cada fase da vida tem uma alegria e uma cantoria. Hoje em dia: Fagner e Baleiro. Poesia pode ser sinestesicamente composta e não precisa ser uma coisa única. Pode ter camadas ou retalhos, como uma colcha, como placas tectônicas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Rumo à liberdade



A busca de ser livre não acaba pra ninguém. Apesar da liberdade ser-nos tão intrínseca, impossível de se renunciar, ainda rumamos para ela como se fosse inatingível. Como se ela pudesse nos escapar...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A escalada

Prefiro subir, subir, subir
A taquicardia, o fôlego que falta
O sacrifício de uma escalada
À planície que se estende molemente
E se alarga, como as horas da tarde
Compridas, intermináveis
As horas do dia não são todas iguais
As horas da tarde demoram-se mais
Penosas, tolas e cansadas
Como são as retas da estrada
Sem a expectativa do fim
Sem a montanha à frente estendida
A vida não tem a mesma graça
Sofre viver assim
Ou se vive mais, sofrendo, enfim?
Incessante e inútil, a perseguição de ser livre
Nunca pode, o ser, livrar-se da liberdade que tem
Intrínseca, como a alma e o amor
Amor que se infiltra nas paisagens
Nos bichos e nos perfumes
Na rotina da vida diária e seus pequenos detalhes
Compromissos, agenda, tarefas
Que se impõem e sobrepõem e se transformam
Num pássaro, às vezes, ou numa casa
Num cesto de roupa lavada
No topo de uma montanha
Cada hora muda de nome
O amor, o desejo, a liberdade
O ser humano 

domingo, 3 de julho de 2011

PEQUENA POESIA


azul pacífico
paz nas cortinas
ondas pela casa
o mar está suspenso
no ar, denso
flutua-se como n’água
sobre prancha de isopor
tudo que eu mais quero da vida
risada e amor
mais nada

terça-feira, 28 de junho de 2011

Apelo


Meu coração não pára de bater, não sei o que acontece. Isso me aflige, esse dom de prever, de sentir. A permeabilidade que alguns seres me faz experimentar. Gostaria de saber exatamente o que é, mas não sei. Só sei que posso sentir quando há angústia, quando há embate, luta. Quando há um conflito mental e um pensamento fixo em mim. Estou assim, obcecada, apaixonada. Possuída? Que loucura, essa confusão corpórea! Às vezes, sinto-lhe tão perto, mais próximo que se em carne viva estivesse. E quando me deixa, me deixa também esta agonia. Mas o que fica é ainda pior: a sua partida, a distância. Uma barreira entre nossas almas, o dia todo vizinhas. E fico triste, preciso chorar, pra esvaziar o que ficou sem saída, preso nesta vasilha em que me transformei desde aquele olhar. Gostaria de esquecê-lo. Gostaria? Não tenho forças, sinto-me rendida a forças muito maiores que as minhas. De repente, o mundo me premia com paz e novos ares, novas pessoas, cenas doces e doces palavras. Mas, quando a rotina torna, tornam estas batidas incessantes e fico à beira do abismo, a um passo de enlouquecer. Já nem sei mais o que é saudade, vivo nela o tempo todo e ela está me engolindo. E por mais que eu pense e repense, ainda não posso concluir nada ao contrário do início. Se o amor arrebatou meu coração desta maneira insana, não vou remar contra. Não que eu não queira! Quando sinto que nada disso é real, mas pura imaginação e viagem minha, tento, tento e tento, com o mais contundente que há em mim, esquecê-lo. Mas a luta se estende por tanto tempo que me vence. Canso-me da luta insistente e do pensamento que não cessa e me ajoelho ao chão, braços estendidos pro amor, como diria Djavan: o Samurai. Que outro nome pode ter a alegria que se sente simplesmente por que alguém existe, senão amor? Contudo, preciso esquecê-lo, portanto, esqueça-me! Não conseguirei acabar com isso se você continuar a pensar em mim noite e dia. Posso sentir! Entre mim e ti, desde que o sentimento se instalou sem permissão, não há divisa. Mas se não quiser esquecer-me, então venha. Renda-se comigo e viva o que estava escrito que seria o nosso amor. Calico skies. Amo demais odiar amá-lo assim. Por quê?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Bicho estranho


Um ser exótico, tentáculos na cabeça
Extensa como uma arraia
As nadadeiras abertas
Sou um bicho de praia
O sol no pensamento
Só barulho de mar, já me recompensa
Uma criatura exótica, olhando por fora
Quanto mais por dentro
Caraminholas “de la liberté” cavucando terreno
Que não é terra firme, mas areia
Muda com o vento, está vivo
Mas nada é mais surpreendente que uma duna
Imponente, resplandecente
Mudo de lugar e minha juba baila e gira
Como um girassol
Minha sobrinha mira, com sua ainda meia-vista
E me identifica pelo aparato ao redor
Dourado nas beiradas
Um bicho exótico
De caraminholas expostas
E índole eminentemente solar
“Estoy aquí”
Mas não falo francês, nem castelhano
Como um bicho estranho que se preze
Falo meu próprio idioma.

Vértice


O sol me salva, sua luz, seu calor. Posso ficar aqui estirada horas e horas. Sol de junho, ainda melhor. O sal me lava. E carrega minhas preces, e abençoa as dádivas que permanecem. A brisa me purifica, venta dos meus ouvidos os pensamentos ruins, o pessimismo. E a solidão me engrandece, o silêncio enaltece o valor das palavras e o brilho de cada ser que se aproxima. As poucas palavras ditas no recolhimento são qual tesouro e, por tão valiosas, requerem o cuidado de um artesão moldando sua obra. Pequenos e preciosos contatos, fotografados pro infinito. Só nas agruras do silêncio, o vértice com o outro é tão bonito.

domingo, 26 de junho de 2011

Apego

O amor não admite intervalo.
Depois que a paixão por outro alguém atravessa a relação como um cometa,
Nada mais haverá para a frente, a não ser apego.
Se a paixão atravessa,
Marca com sua linha invisível os novos hemisférios, como um trópico.
E divide em dois, mesmo o indivíduo que não quer ver
E permanece no hemisfério do passado,
Tentando reconstruir o vidro.
Mas não existe amor quebrado.
Não existe amor sem integridade.
O que resta do amor incendiado pela chama de terceira pessoa
Não passa de cinza,
Vã tentativa de restaurar o objeto partido.
Só apego.
O mistério maior é que o evento trágico possa ser o atalho,
A ponte de acesso mais fácil para o inevitável.
Há que se entender um pouco da vida pra saber que alguns enigmas não são desvendados de imediato.
E que a paixão é uma espécie de estrela.
É o guia mais sensato desta vida,
Que alcançamos tão pouco, pudera! 
Se agarramo-nos ao oco...
Ignorar o trópico que divide os hemisférios do passado e do futuro
Não devolve ao globo o estado anterior.
O amor não admite intervalo.
Retomá-lo com falha,
Continuar apesar de acesas as fagulhas do cometa,
Não é proeza.
Só apego.

(A capacidade de enganar o outro, me assusta. Mas é a capacidade de se trair que me apavora. Este é o compromisso da inverdade, com o qual não compactuo. Não invejo o pseudo-amor que passa por cima de tudo, ignora os instintos. A quem o queira, que faça dele bom proveito.)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

QUAL SERÁ O FINAL?


Qual será o final? Não se sabe. Ninguém sabe. O final é uma coisa redonda, quando alcança o ponto inicial, recomeça, e ninguém sabe quando. Se a vida de hoje é paciência, talvez no fim valha a pena. Talvez, ao chegar lá, no ápice da história, todos os detalhes escusos se entrelacem, tão bem costurados que tudo, mas tudo mesmo, tenha valido a pena. E faça sentido. Mesmo que agora pareça uma grande armadilha do destino. Sigo jogando. Sem saber o fim, aposto que, no auge do enredo, haverá um motivo a justificar tudo. Qual será o final? Não se sabe. Ninguém sabe. Sigo escolhendo as cenas, editando o filme da vida conforme o coração. E assim, não sei se o fim será feliz ou triste, mas, sob a luz do sentimento, de qualquer maneira haverá uma maravilhosa história de amor pra ser contada. Pra ser contada pros amigos, pros desconhecidos, pras crianças. Sigo apostando. Porque desencontro de amor é uma coisa romântica, mas todos preferem a esperança que só o final feliz inspira.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ENCONTRO


Encontro é o curto momento em que a existência, que caminha a esmo a maior parte do tempo, faz sentido e nos remete ao encanto do inexplicável. Curto momento em que a congruência entre dois seres sobressai e altera o itinerário. Curto e inevitável momento em que a reação entre dois corpos resulta em conjunção de almas e dá asas ao acaso. Curto momento que perdura, apesar da brevidade, e cobre de prata os detalhes que preenchem tudo o mais que é vida, mas não é felicidade.

(Se são só momentos o que temos, que possamos vivê-los completamente, sem medo, pra que as lembranças sejam inteiras e nosso sustento no intervalo que se impõe entre nós e o reencontro).


segunda-feira, 13 de junho de 2011

COMO UM CAVALO


Eu não sei voar
E ainda assim
Só sei voar
Como um cavalo selvagem
Crinas ao vento
Sujeito ao tempo e ao perigo
Escrevo na parede do quarto
"Eu não sei voar, isso é ilusão"
Mas não adianta
Ao menor descuido
Meus pés se elevam
E do chão flutuam
Animal voador
Mesmo domado intimida 
Um animal voador é magnífico
O solo quente e árido
Não fere seus cascos
De tão veloz o galope
Quase não atritam com o chão
Decola pro horizonte
Num tiro rítmico de cavalo
Eu não sei voar
E ainda assim não desisto
Só sei voar
E imitar um cavalo arisco
Exercitando sua perfeição
Num vôo incrível

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O nome deste poema não tem nome



Flácidas palavras me alegram com seus éles entrelaçados entre consoantes pálidas. Adoro dizer seu nome, e por causa dele descobri que gosto do éle que se enlaça no bê, no pê, no gê, no éfe e no cê, compondo sons inflamados, como clima e flauta, clave e blusa, fluido e nublado. Também gosto de placa, de glória, de Plutão, de Gláucia. E é claro, gosto de Clara, de clareza, de plástico, glicerina, de clorofila. Como gosto de flerte, de Cláudio, de teclado, de Glauber. Adoro mais ainda Clarissa, plasma, templo, plácido. E Clóvis, (minha sina), Blumenau, um destino. Também gosto de planície, do Pluto, de plush, de planta. E ainda de clone, de close, de clamor, de glamour, de gliter, de bloco. Gosto do Tony Blair, apesar de passado, e de Platão, sempre atual. E gosto de tablado, de público, de flutuar ao teu lado. Gosto de flores, de plural, de glossário. De Plínio nem tanto. Mas gosto de Flávio, de Kleber, de sorvete de flocos, de simplicidade. Já Claudete, blindagem, blá blá blá, fluconazol e problema: passo. Mas todas as palavras que, como seu nome, embalam-se numa língua que sobe pro alto, são de dicção formidável. Tem também explicação, aflição, inflamação, conclusão, pleonasmo. Um primo chamado Cleiton, um sonho chamado Glauco. Tem glúten no pão de hambúrguer, e no francês e no de forma, não tem jeito. Tem o globo e a gleba, também tem pleura, também tem pleito, também tem pluma, também tem clero. E a oclusão insegura. E o Klecius da sala ao lado. Tem também o Suplicy, político que gosto. E tem flancos que sobram, e glúteos à mostra, aos montes. Tem gladiador, glicose, glote. E Cleusa, reclusão, suplício, Plutarco. Tem flatulência, glaucoma, clube, glub glub. E tem seu nome, que não digo porque respeito, mas que dá vontade, isso dá, é inevitável. Mas resisto. Em consideração ao bloqueio que trazes: emblema, blasfêmia, oblíquo. E num fluxo incontido de hemoglobina, um blues glacial, Clark Gable, uma flâmula, um clique. Não quero flagrante, nem fluoxetina, nem claustro. Nem catástofLe, nem desastLe, nem pLisão, ou qualquer outra palavra do Cebolinha. Mas o ciclo completo é bem-vindo: a glândula, o clitóris, a plêiade, o clímax.