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sábado, 24 de setembro de 2011

E ela se despedia com a boca arreganhada, sem dó.

Da cama, ela me olhava. Escancarada, repleta, pequena pra tanta bagagem. Transbordavam dela, meses e surpresas. Estava grávida de acontecimentos. E a distância escapava pelas beiradas, numa outra blusa de frio, num pedaço de coberta. Ela me olhava despudorada e insensível, com afronta. E com sua boca arreganhada e, vomitando roupas, dizia sem misericórdia que ia.
A despedida era aquilo! Uma mala grande e cheia, transbordando e sorrindo com dentes de zíperes maléficos.
O adeus era uma mala no meio do quarto: despudorada, inquieta e sádica.
Mas no peito, era mais. Era de se conter e se expandir, de se ignorar a indiferença confessa no desleixo da safada. Entre todas aquelas coisas futuras, sonoras gotas de chuva contrastavam, presentes. O prato da amargura estava de cabeça para baixo.
Que importava o aceno? Nunca se sabe ao certo para onde vai, apesar da partida.
O gosto das coisas varia, conforme o paladar.
Mas a mala não se continha, sorria sem piedade pra mim, como quem soubesse que eu represava lágrimas. Quase humana. 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Areia movediça





Não entendo como foi tudo acabar assim, o que parecia tão quente não ter mais nenhum calor. É estranho também que eu te tenha esquecido tão já. Uma pedra sobre você, agora que já não tenho lágrimas nenhumas. Também não sei porquê. Chorei-as todas em uma semana. Agora já não posso. Já não as posso alcançar. Mergulharam na areia movediça das expectativas não consumadas. E não as olho mais. Assim, não as posso chorar na ausência da lembrança, como se nada mais houvesse, nem o que lembrar. Mas isso é porque a dor cobriu de cal a doçura dos momentos perdidos para que não doam mais. E para que eu possa seguir dona de mim, sem olhar pra trás. Para não dizer que nada lembro, permito-me lembrar a frieza de seus olhos e a dureza de suas palavras a justificar os olhos frios e a partida repentina. Este é o fato desconexo de seus pesadelos: a improvável despedida que sucedeu isenta do seu pesar.

domingo, 9 de março de 2008

Um quadro

O amor é uma coisa que a gente nunca sabe...
O amor é um sorriso,
É um olhar sabido,
É uma inclinação.
O amor é como tarde pegando fogo no horizonte...
O sol laranja pondo-se e opondo-se à escuridão da noite.
O amor é como um quadro triste de águas dormindo e de aves se recolhendo.
Tem a floresta adormecida por cenário e toda a potência de seu sono.
Tem o sol derramado nas árvores, despedida...
Tem o calor da tarde - mas é fim de dia.
Um quadro triste que, enquanto arde, já se dissipa...
Apesar de tanta energia adormecida, potencial...