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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O que eu mais gosto

O que eu mais gosto daqui são os velhos
As rugas juntas e a pele grossa, os cabelos brancos
O que eu mais gosto na Europa são as pedras que compõem as casas
Os prédios pequenos, as igrejas e as ruas do centro
Os tijolos de outras épocas que erguem sólidas construções e arcos
O que eu mais gosto é o destemor de assumir o antigo e o precário
São as avós e as tias zanzando pelas calçadas de Coimbra
Sentadas nos cafés, nas praças, padarias
Com os netos, os amigos
O que eu mais gosto destes dias que surgiram em minh’alma
É a vida, em todas as etapas exposta, e à mostra como uma coisa bonita
Um outdoor, um cartão de visitas
O que eu mais gosto é ver escombros e pátios, janelas e varais
Chaminés acesas e cortinas
Senhoras de casacos de lã e avental pelas ruas, restaurantes, ao pé das casas
Senhores trajando roupas de alfaiataria e boinas
O que eu mais gosto é não haver asilos pra esconder o tempo que passa
Mas abrigos, lugares, cadeiras. Companhia e vida
Nas varandas, nos quintais, nos sítios e paragens
Pra toda essa gente antiga e edifícios
Que envelhecem vestidos de si mesmos
Orgulhosos, pálidos e amarrotados. Ostentando poesia

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Cidade perdida


Queria a presença legítima
De um tempo extra,
De um momento que exista
Entre o agora e o depois.
Viver as escolhas deixadas
Nesse instante embutido
No avesso dos panos guardados
Que não vestimos.
Ouço você me chamando,
Mas não atendo
...
(O real não deixa).
Vejo você pelo espelho,
Sua sombra na minha calçada.
Adianto seus cabelos brancos
Sobre minhas pegadas
E eu sempre a contar-lhe
Meus planos e queixas.
Mora entre nossos olhos
Uma cidade perdida.
O vazio das ruas desertas
E a ternura das coisas sonhadas
Por nós não vividas.
Queria permanecer neste espaço
Entre o seu sussurro e o meu suspiro.
Queria mais palavras,
Assuntos incontidos.
Vejo você chegar 
E, com um aceno de mão,
Resgatar-me deste lugar
Reservado a mentiras,
De amanhãs, impedido.