poesia é a arte de cantar sem nenhuma nota
a arte de dizer tudo na abstração
a arte de legar o nada à deriva das rimas
a arte de sentir sem sentido algum
poesia é maneira de pensar o mundo
maneira de fugir de tudo
pegar carona numa brisa, num furacão
poesia é o caminho oculto
pro outro lado - o absurdo
lugar que não decide se existe, ou não.
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terça-feira, 10 de setembro de 2013
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O que eu mais gosto
O que eu mais gosto daqui são os velhos
As rugas juntas e a pele grossa, os cabelos brancos
O que eu mais gosto na Europa são as pedras que compõem as casas
Os prédios pequenos, as igrejas e as ruas do centro
Os tijolos de outras épocas que erguem sólidas construções e arcos
O que eu mais gosto é o destemor de assumir o antigo e o precário
São as avós e as tias zanzando pelas calçadas de Coimbra
Sentadas nos cafés, nas praças, padarias
Com os netos, os amigos
O que eu mais gosto destes dias que surgiram em minh’alma
É a vida, em todas as etapas exposta, e à mostra como uma coisa bonita
Um outdoor, um cartão de visitas
O que eu mais gosto é ver escombros e pátios, janelas e varais
Chaminés acesas e cortinas
Senhoras de casacos de lã e avental pelas ruas, restaurantes, ao pé das casas
Senhores trajando roupas de alfaiataria e boinas
O que eu mais gosto é não haver asilos pra esconder o tempo que passa
Mas abrigos, lugares, cadeiras. Companhia e vida
Nas varandas, nos quintais, nos sítios e paragens
Pra toda essa gente antiga e edifícios
Que envelhecem vestidos de si mesmos
Orgulhosos, pálidos e amarrotados. Ostentando poesia
quinta-feira, 2 de junho de 2011
OLHOS CASTANHOS
Um quarto escuro
Dessa cor são meus olhos
Profundos
Através deles eu converso
E meu assunto
É poesia
Coisas fugidias
Gasosas
Prefiro o abstrato
O universo que comporto
É um absurdo
E me basta
Ignoro a gramática
Se dela extraio
Som mais fácil
Da tua tez pálida, culpada
Não quero nada
Estou, de ti
Anos-luz adiantada
Anos-luz adiantada
São meu carrinho de rolimã
Os pés descalços
A mente que levita
Dos filmes que assisto
Guardo os beijos
E as histórias de amor
Ainda que finitas
sexta-feira, 29 de abril de 2011
ESTADO DE POESIA
poesia é o estado das coisas etéreas
há que se ter a alma leve, leve, pra que se a alcance
há que se ter um buraco qualquer por dentro
a tornar-nos porosos e dotados de uma propriedade abstrata
há que se ter uma música no pensamento, quase sempre
e um desejo de ser amado, mesmo sem merecimento
há que se ter um amor sem dono
universal e amplo
exagerado e platônico
por algo, alguém
ou por tudo
poesia não é um estado de coisas concretas
de coisas terrenas
também não é própria dos que não sabem chorar
ou dos que não podem mergulhar com os olhos abertos
poesia é um alimento
que às vezes a gente põe pra dentro
às vezes a gente cospe
domingo, 26 de setembro de 2010
Massa de modelar
De que matéria é feito, você?
Massa de modelar toma a forma que a gente quer.
Pode ser circular, pode ser quadrada,
Posso arrancar um pedaço ou grudar um bocado.
Posso entortar pra direita, pra esquerda,
Agrupar cores e objetos vários.
Massa de modelar é uma boa matéria
Pra compor as pessoas.
Não fere, não parte.
E se parte, não é com dor,
Mas com novidade.
Tem de toda cor e o cheiro é nostálgico.
Lembra a pré-escola
E, do colégio, o pátio,
Que cheirava à lancheira.
(Recreio de criança tem cheiro de lancheira,
De suco guardado na garrafinha térmica
E lanche embrulhado no guardanapo.)
É incrível o que se pode fazer
Com massa de modelar!
A gente pode esfarelar de tanto amassar,
Pode enrolar com as palmas das mãos
Até que todas se tornem de uma cor só.
Massa de modelar é uma matéria boa
Pra moldar a pessoa.
Não sei porque esta pele
E por baixo dela, a carne,
Os ossos, as veias,
A alma, a consciência.
De que matéria você é feito?
Massa de modelar não requer ciência,
Não requer preparo, nem dom.
Qualquer criança é capaz de dar-lhe vida
E depois outra vida
Qualquer vida que seja,
Mesmo já sem cor.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
POETAS SÃO SOZINHOS
Poetas podem ficar consigo
Sem perigo de tédio
Ou de solidão
Poetas são verdadeiros
Indivíduos
São também o mundo inteiro
Resumido em frase
Verso
Ou cantiga
Poetas não tem medo
Poetas são amigos
Do silêncio e do frio
Poetas são seres à parte
São humanos vorazes
Nutridos na filosofia
Ancorados no buraco negro
Onde moram as perguntas
De respostas vazias
Poetas são como eu
Do breu fazem a luz
Da luz, o fechar
Dos olhos pensativos
Do abstrato
Um retrato do vazio
-A ternura de ser tão assim-
Poetas são sozinhos
Mas são o mundo inteiro
Poetas são verdadeiros
Companheiros de si mesmos
Sorte minha
E de todos por aí
Sorte de quem senta pra ver
Um dia, o sol nascer
Ou se despedir
Poetas são de se ler
De se contemplar
De se amar com os olhos
Comovidos
Ou com o coração
Mexido
Pela doce emoção
De sentir no que ouve
A maior dimensão
E o carinho
Das palavras que nascem
Da solidão sem motivo
De um poeta consigo
A tecer seu poema
E esmiuçar
De seu próprio dilema
A saga terrena
De todo dia.
sábado, 17 de julho de 2010
Minha coleção
Minha coleção de textos
Minha coleção de músicas
Minha coleção de erros
Minha coleção de versos
Minha coleção de fotos
Minha coleção de medos
Minha coleção de sonhos
E de lembranças
Minha coleção de besouros
Que trombam desajeitados
Nas paredes intrometidas
Minha coleção de cores
Minha coleção de imagens
Minha coleção de amores
Minha coleção rara
De jóias desconhecidas
Minha coleção gigante
De letras brincalhonas
Que se unem em quadros
Valiosos como ouro
Minha coleção de fatos
Minha coleção de lágrimas
Minha caixa de tesouros
Minha coleção de dores
De tristezas incontidas
De perspectivas vazias
E de momentos felizes
Minha coleção de palavras
Minha coleção de caixas
Repleta de recordações
Repleta de cartazes
Que alardeiam ao mundo
Tudo o que passa e arde
Nos corações feridos
Nas almas aturdidas
Pelas emoções várias
Capazes de provocar risos
Ou prantos contínuos
Minha coleção de vida
Minha coleção solitária
Minha coleção de azuis
E de rosas e marrons escuros
Minha coleção de vozes
E de sons tão lindos
Minha coleção única
Que me incentiva e inspira
Todo dia apesar da poeira
Da noite ou das cruzes
Minha coleção de luzes
Minha coleção querida
Meu blog que me salva
Da falta de companhia.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Dádiva e emoção
Estes últimos dias
Músicas várias me preenchem
Como se eu estivesse vazia
Vazia de poesia
E então fico a pensar
O que será toda esta rima
Que não me deixa
Que me alucina
Que me alucina
Toda hora
Dia após dia?
Dia após dia?
O que será
A emoção que contagia
A emoção que contagia
Que me enche de mim mesma
E da beleza fina
De uma voz macia
De uma voz macia
Cantando o amor
Não correspondido
Não correspondido
Senão minh'alma
Sempre cheia e zunindo
Na mais linda poesia?
Sempre cheia e zunindo
Na mais linda poesia?
Que ora se esvai em água
Ora escapa em versos
Ou em admiração sincera
Da dádiva que mora perto
E dentro de um grande poeta?
E dentro de um grande poeta?
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Diário

Por que não posso ser como Simone? Sim, posso. Quero registrar meus passos, minha história, perscrutar meus pensamentos, meus devaneios, meu trajeto que vem e vai.
Por que não posso vislumbrar meu desassossego? Meu pestanejar? Os arremedos de minha história, de minha tentativa, de minha caminhada quase sempre solitária?
Quero escrever meus passos, pra depois lembrar. Estudar meus pensamentos, meus pesadelos, desvendar meus repetidos erros e esparsos acertos.
Como Beauvoir, mas nem tanto. Quero usar de enigmas, de encantos, não ser tão clara, tão rasa. Nem ao mesmo tempo, tão detalhista, tão minuciosa.
Prefiro o mistério, os símbolos, as charadas, a conquista à moda antiga, a prosa de Vargas Llosa, as línguas desconhecidas, as linhas em versos, a poesia.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Eu não tenho bula
O que é poesia?
Além de poesia só?
Um retrato de um sentimento
Que sem a escrita
Ficaria ao vento,
Etéreo, solto ao ar.
Poesia é só um pedaço
De um sentimento, de uma emoção,
Que sem o formato dos versos,
Nem pelo coração seria captado.
Poesia é uma fotografia.
Não é uma receita, uma bula,
De como funciona a pessoa.
Sequer uma dica,
De como passam os dias,
Como um “reality show”.
Poesia é só arte.
É brincadeira de palavras
Que julga o autor declamar.
Mas, como já disse,
As palavras têm sua própria vontade.
Não tente desvendar o poeta
Pelas frases que inverte,
Com rima e melodia.
Poesia é só um retrato,
É fotografia.
Sem ela, iria o sentimento
Ao vento, pra sempre,
Sem retorno ou contemplação.
Com ela, a emoção fixa-se eterna,
Estática, concreta.
Permanente, pelas estações.
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