tudo era amor naquele momento e desde o primeiro momento porque a alma reconheceu-se e a alma não tem traços fixos mas contornos indefinidos flexíveis e o amor tem nomes variados muitos nomes e faces e se entristece quando sob pseudônimos vem e vai sem ser notado mas naquele dia e nos subseqüentes a mulher já sabia que a doçura contida em pequenos gestos e entre as ondas de pensamentos e sentimentos enredados em harmonia afinidade e companhia e entre dedos que se tocavam com calor e carinho o que se revelava era tão somente AMOR mas tinha o nome de ternura de doçura de laço cármico o amor naquele caso podia chamar-se amizade mas quis ser mais e foi e voou pra mais longe como um pássaro preto à beira do Amazonas e seu piado no silêncio um som mágico a alastrar-se por dentro das almas e a apertá-los com um laço indelével e perpétuo um laço trágico e eterno porque naquele caso o amor tinha tantos nomes e não se iria com o tempo nem com nada nele havia imagem canto poesia havia uma cena de filme compartilhada e o encontro inebriante de um passado contido pra sempre naquele pássaro que quase o atropelou mas depois veio alojar-se nos cabelos dela de onde ele respirou extasiado o reencontro consigo mesmo à margem do próprio espírito no dela unido num instante mágico
O sol me salva, sua luz, seu calor. Posso ficar aqui estirada horas e horas. Sol de junho, ainda melhor. O sal me lava. E carrega minhas preces, e abençoa as dádivas que permanecem. A brisa me purifica, venta dos meus ouvidos os pensamentos ruins, o pessimismo. E a solidão me engrandece, o silêncio enaltece o valor das palavras e o brilho de cada ser que se aproxima. As poucas palavras ditas no recolhimento são qual tesouro e, por tão valiosas, requerem o cuidado de um artesão moldando sua obra. Pequenos e preciosos contatos, fotografados pro infinito. Só nas agruras do silêncio, o vértice com o outro é tão bonito.
Às vezes, as palavras, tão minhas amigas, tornam-se desnecessárias, supérfluas, vazias. Porque palavras não são tudo. Há um mundo que é obscuro, ou interno, ou escuso. É o segredo. O que acontece só dentro, em compartimentos. É tudo o que não se revela. É uma magia secreta, que acontece oculta. E o que acontece assim e não se divide, é como um traço. A diferença que faz no mundo, é só da energia que emana. Há coisas que acontecem dentro, e são como um sonho. No externo, só o que se sabe, é o que emana, no semblante que ri, na silhueta que dança, submersa nas ondas de calor das almas acesas. O segredo é o que falta no mundo. O contido, o assobio nos pensamentos, cantando sereno, secreto, o sorriso nos lábios, discreto: efeito do que se omite, mas existe. O que há por dentro e, em silêncio, acontece. O desejo, a idéia formada, a amizade velada. Segredo. O que falta no mundo. O mistério, o silêncio, a permissão de ser, à deriva de tudo, dos mares, dos homens, do julgamento, dos olhares e das palavras sem argumento. Onipotente até no absurdo.