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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Tudo e pouco


Tudo
muito
sobra
e ainda
dá qui, o mundo
voltas
e afloram
curvas, folhas, horas
dá cá páginas em branco
assunto
e coisas que não cabem
frutos
gotas
sumos
e beiradas de areia e granizo
muros e degraus de vidro
entra, senta, fica
toma um café
e então
pega chapéu
cajado, vida
e parte
com seu riso
névoa, rastro
premia-me com o vazio
o silêncio
o infinito
pouco
é o preciso.  

segunda-feira, 18 de julho de 2011

voava o amor como um pássaro


tudo era amor naquele momento e desde o primeiro momento porque a alma reconheceu-se e a alma não tem traços fixos mas contornos indefinidos flexíveis e o amor tem nomes variados muitos nomes e faces e se entristece quando sob pseudônimos vem e vai sem ser notado mas naquele dia e nos subseqüentes a mulher já sabia que a doçura contida em pequenos gestos e entre as ondas de pensamentos e sentimentos enredados em harmonia afinidade e companhia e entre dedos que se tocavam com calor e carinho o que se revelava era tão somente AMOR mas tinha o nome de ternura de doçura de laço cármico o amor naquele caso podia chamar-se amizade mas quis ser mais e foi e voou pra mais longe como um pássaro preto à beira do Amazonas e seu piado no silêncio um som mágico a alastrar-se por dentro das almas e a apertá-los com um laço indelével e perpétuo um laço trágico e eterno porque naquele caso o amor tinha tantos nomes e não se iria com o tempo nem com nada nele havia imagem canto poesia havia uma cena de filme compartilhada e o encontro inebriante de um passado contido pra sempre naquele pássaro que quase o atropelou mas depois veio alojar-se nos cabelos dela de onde ele respirou extasiado o reencontro consigo mesmo à margem do próprio espírito no dela unido num instante mágico

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Vértice


O sol me salva, sua luz, seu calor. Posso ficar aqui estirada horas e horas. Sol de junho, ainda melhor. O sal me lava. E carrega minhas preces, e abençoa as dádivas que permanecem. A brisa me purifica, venta dos meus ouvidos os pensamentos ruins, o pessimismo. E a solidão me engrandece, o silêncio enaltece o valor das palavras e o brilho de cada ser que se aproxima. As poucas palavras ditas no recolhimento são qual tesouro e, por tão valiosas, requerem o cuidado de um artesão moldando sua obra. Pequenos e preciosos contatos, fotografados pro infinito. Só nas agruras do silêncio, o vértice com o outro é tão bonito.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Horizontes de silêncio

Nas cidades pequenas
Não se perde o horizonte
A estrada se alonga e vai
Até onde o sol se põe
E a dois seres que se cruzam
É possível o silêncio
Que dialoga com o íntimo
Do encontro que nasce
Apesar do desconhecido
Porque o vértice é fugaz
Entre dois seres lado a lado
Há o que foge e o que fica
O que vai e o que corre atrás
E assim se constrói o universo do encontro
Pois apesar do conexo
Há o indivíduo complexo
Que se quer deixar estar como está:
Apesar do encontro: Indivíduo
Mas adiante algo nos liga
A outro que já não está, mas que fica
Num gesto, ou palavra
No medo, ou numa lágrima,
Num dedo que se insinua no meio da palma
Ou nos lábios que se unem
Bochechas flácidas
A assoviar...
E as palavras novas que são ditas
Carregam em si nostalgia
De outros encontros
Horizontes esquecidos
Que se reanunciam

sábado, 15 de agosto de 2009

Segredo



Às vezes, as palavras, tão minhas amigas, tornam-se desnecessárias, supérfluas, vazias. Porque palavras não são tudo. Há um mundo que é obscuro, ou interno, ou escuso. É o segredo. O que acontece só dentro, em compartimentos. É tudo o que não se revela. É uma magia secreta, que acontece oculta. E o que acontece assim e não se divide, é como um traço. A diferença que faz no mundo, é só da energia que emana. Há coisas que acontecem dentro, e são como um sonho. No externo, só o que se sabe, é o que emana, no semblante que ri, na silhueta que dança, submersa nas ondas de calor das almas acesas. O segredo é o que falta no mundo. O contido, o assobio nos pensamentos, cantando sereno, secreto, o sorriso nos lábios, discreto: efeito do que se omite, mas existe. O que há por dentro e, em silêncio, acontece. O desejo, a idéia formada, a amizade velada. Segredo. O que falta no mundo. O mistério, o silêncio, a permissão de ser, à deriva de tudo, dos mares, dos homens, do julgamento, dos olhares e das palavras sem argumento. Onipotente até no absurdo.