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terça-feira, 5 de junho de 2012

Por que você chora


Você chora sem saber por quê
A madame sofre sem nenhum motivo
O adolescente quer o que não tem
O neném resmunga pedindo por leite
Aqui, ali, em todo lugar
Falta em nós sempre alguma coisa
E assim é porque no mundo inteiro
Ainda abunda o que fere e é feio
Enquanto neste aqui ou n’outro canto
‘Inda houver fome, angústia, desalento
Mesmo você que está longe de tudo
Irá sentir um buraco no peito
A humanidade é um organismo imenso
Se qualquer parte dele adoece
Também padece o que resta ileso
E é por isso que o rico e aquele
Que mora em um lugar desenvolvido
Por dentro chora, mesmo indiferente
E sente em si um vazio latente
Enquanto houver em cada continente
Quem não possua em casa alimento
Ou mesmo água a sair da torneira
Quem sinta dor e nenhum cuidado
Vindo de médicos ou do Estado
Ainda haverá no mundo tristeza
E em cada homem uma incompletude
Lágrima que não se sabe d’onde veio
Uma chaga aberta que na alma aumenta
Pois desconhece a causa matreira
Quem não reflete bem o universo
E ignora nossa natureza
: Que cada ser humano é uma célula
Parte pequena de único corpo
De mesma importância - equivalência
Torne-se a Terra um lugar equânime
E então será a alegria inteira
E a felicidade que tanto sonhamos
Não mais apenas uma passageira.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Tristeza de fim de ano

Eu carrego uma tristeza que aumenta com o passar dos meses do ano.
O molhado dos seus olhos me volta, com cândida insistência.
Cada coisa que eu aprendo, cada novo papel que represento, me alimenta esta tristeza, saudosa de um tempo ingênuo.
Esta tristeza que eu carrego não pesa, é como pena. Mas de vez em quando escapa uma no ar, voando ao vento.
E quando chega dezembro, ela assovia com lábios gordos no meu ouvido tristonho.
Esta tristeza de um tempo em que ser presa parecia uma maneira de driblar a solidão.
Mas hoje, neste chão de algodão, tão instável e delicado, místico e nostálgico, que anuncia o verão, sondam-me seus olhos cansados, faltam-me seus braços ao redor.
Prendo-me na liberdade e no amor pulverizado pelo ar de um lugar pra onde eu fui empurrada por suas mãos covardes.
Mas já não me abrigo em claustros. Meu ser cavalga pradarias, transcende os limites da moral.
E ama sem destino ou ilusão. Um amor quadriculado de minúsculos e infinitos quadrados vazios.

domingo, 21 de agosto de 2011

TRATADO SOBRE A TRISTEZA


A tristeza é minha amiga e não se aparta por muito tempo. É uma companhia itinerante, que quando menos é provável, me visita, carregada da velha bagagem de sempre.Hospeda-se comigo, sem alarido, e sua estada me é familiar e serena. E até que ela se vá, eu me dedico a consolá-la somente.
Não tenho queixas a respeito dela. Ela não me trai jamais. Estar com ela é passear um pouco na madrugada, sem saudade do dia. É deixar-se existir sem a expectativa dos sorrisos ou do júbilo.
Encostar-me um pouco no fundo, recarrega minhas baterias. Quando vejo as coisas do alto, minha percepção é dúbia e me ilude. O que a tristeza tem de mais bonito é que ela não me derruba. E estar com ela sem alarde, me faz mais forte e mais capaz de seguir sem medo. Afinal, quem tem na tristeza uma amiga, não tem o que temer.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

"Statu quo"

O que será o barulho?
O choro que não cessa?
A tristeza, a consciência
Da solidão persistente?
Por que o desequilíbrio que humilha?
Que afasta a linha,
O eixo ideário?
Algo em mim, em ti,
Nos afasta enquanto nos une.
Será o medo, a posse,
O ideal de controle?
O pai e o filho?
O grito ou o choro?
A predileção à tristeza
Que à indiferença?
Ou a procura da indiferença,
Mais garantida fonte de tristeza?
Por quê?
Talvez só a ânsia de restabelecer
O “statu quo ante”
De apagar a discórdia,
Dissolver da memória
A inglória confusão.
O sonho perdido num instante
E que jamais torna.

domingo, 23 de agosto de 2009

AXÉ




Horas solitárias e doloridas. Lágrimas. Lágrimas amigas que desanuviam meu peito e liberam meu ser para sensações outras, que não esta dor sem causa. Às vezes choro. Pela manhã, quando me troco. Quando me dispo de minhas vestes e me toco. A pele fria. Às vezes choro e o choro é fundo. É só uma dor. Sem explicação. Sem motivo remoto. São lágrimas desesperadas, desconectadas do real, abismadas no vazio. Lágrimas salvadoras. Irrompem, com suas gotas, a dor bloqueada, as dores rotas, amassadas, sufocadas pela razão. Porque neste país e nestes tempos, é fora de moda ser infeliz. Axé para os brasileiros! E, no pensamento do cidadão, a teoria de “O Segredo”. É fora de moda ser triste. A maioria das emoções não mais existe. Qualquer que seja o estado de espírito, a alegria impera, sob o som do AXÉ, o torpor das “ervas”, a distração dos churrascos com cerveja. Antes podíamos ser tristes. Cantar a dor, transpor os limites do agradável. Hoje ninguém mais resiste. Tudo deve ser editado. Nossos intelectuais afastam-se, apavorados. O lema é a positividade, a risada. O “amasso”, a música animada. Ninguém mais canta o desencanto. O desalento. A tristeza. O questionamento. A dor. O buraco de ser humano. De ser pensante. Até os intelectuais sorriem. Até a boemia é “pra cima”. O que houve com o Romantismo e os poetas das antigas? A que se reduziu o homem com seu sorriso implacável, permanente, e seus mil e quinhentos amigos? É mal cantar a tristeza, o mal, a avareza, o egoísmo, a corrupção? É mal incomodar-se num país como o Brasil? Em que o que mais vale é sorrir, à imagem da perfeição, com axé geral nas rádios.Quero todos os nuances. Ser imperfeita.