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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eu pensei que o amor era tudo.


Eu achei que amor era andar junto.
Dei a mão e fui.
Mas depois de um tempo doía
Entre os dedos e nas juntas,
Saltava uma veia na testa
E entupia uma artéria.
Eu pensava que o amor era tudo
Até que não tinha mais nada.
A dispensa estava vazia
A casa abandonada.
A poeira, os livros cobria,
E o telefone vinha mudo.
Eu considerei o amor
Um ente superior,
Uma membrana bem fina,
Uma criança tão frágil.
Eu tratei do amor
Como quem rega uma planta
Todo dia, sem cessar,
Até que a terra encharca.
Mas o amor não era nada
Daquilo que eu cogitara.
Era só um dia de sonho,
Uma cor suave,
Uma risada.
O amor não era de levar,
Sequer deter entre os dedos,
Então larguei mão e o deixei
Solto, ao sabor do vento.
E pra trás também ficou
O que era dor,
O que era medo.
E só então descobri:
Que o amor não era nada.
Só uma nuvem branca
Que vai. Que volta.
Que passa.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Por que você chora


Você chora sem saber por quê
A madame sofre sem nenhum motivo
O adolescente quer o que não tem
O neném resmunga pedindo por leite
Aqui, ali, em todo lugar
Falta em nós sempre alguma coisa
E assim é porque no mundo inteiro
Ainda abunda o que fere e é feio
Enquanto neste aqui ou n’outro canto
‘Inda houver fome, angústia, desalento
Mesmo você que está longe de tudo
Irá sentir um buraco no peito
A humanidade é um organismo imenso
Se qualquer parte dele adoece
Também padece o que resta ileso
E é por isso que o rico e aquele
Que mora em um lugar desenvolvido
Por dentro chora, mesmo indiferente
E sente em si um vazio latente
Enquanto houver em cada continente
Quem não possua em casa alimento
Ou mesmo água a sair da torneira
Quem sinta dor e nenhum cuidado
Vindo de médicos ou do Estado
Ainda haverá no mundo tristeza
E em cada homem uma incompletude
Lágrima que não se sabe d’onde veio
Uma chaga aberta que na alma aumenta
Pois desconhece a causa matreira
Quem não reflete bem o universo
E ignora nossa natureza
: Que cada ser humano é uma célula
Parte pequena de único corpo
De mesma importância - equivalência
Torne-se a Terra um lugar equânime
E então será a alegria inteira
E a felicidade que tanto sonhamos
Não mais apenas uma passageira.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Queria desenhos


Meus desenhos são as palavras
Com elas faço caras, nuvens e mares
Com elas preencho tudo de cores,
Ou retiro
Pincelando-as com a apatia mesma
Dos passados amores
Meus desenhos são as palavras,
Esvoaçantes como passarinhos
Ou tristes como as lágrimas
De causa desconhecida
Por vezes são tão vivas,
Repletas, cheias, sortidas
Outrora tão escassas, desprovidas
Da argamassa que edifica
Ilustram em branco e preto
O silêncio contido,
O sentimento perdido,
A conquista que se esvai
Meus desenhos são as palavras
Mas ainda são melhores
Porque delas além de imagens
Há sons, há paragens
Delas, simultâneas, caem
As mordaças habituais
E a mente enrustida
Meus desenhos são as palavras,
Coloridas ou esfumadas
Tocadas de fel ou de ar
São os melhores retratos,
Os mais caros bordados
A ilustrar o som que rima
Da dor que sai.

domingo, 18 de outubro de 2009

SOLIDÃO

Minhas gargalhadas continuam. Mas a essência do meu ser volta a ser água. Sinto-me uma ilha ao avesso. Mergulhada no choro, isolada do mundo. Não acho que as coisas sejam capazes de regressar ao que eram antes desta dor. Desta solidão. Mas, se esta solidão sempre esteve aí de alguma forma, não terei eu apenas constatado a dor? Algo se quebrou em mim. Sou só. Não há como remediar esta dor. Este cristal espatifado em mil e quinhentos cacos. Colados como num quebra-cabeça, tem aparência de intactos. Mas não servem pra nada. Não suportam o movimento pinçado dos dedos e nem o conteúdo líquido dentro. Solidão. Conseqüência e causa de uma dor que não passa. Que depois de instalada, não acaba. Nunca mais.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Romantismo literário, covarde, arbitrário



Eu quero ir pra casa...
Me leva...
Me arrasta...
Me pega.
Sinto tanta dor
Desta que dói no peito
Tão forte, tão dentro.
Sinto tudo mudando de cor
E a coragem faltando...
Não tenho nada que dure,
Nada que valha,
Nada que eu queira,
A não ser a navalha.
Me leva pra casa,
Me carrega no colo,
Me invade
Com essa covarde coragem
Que falta pro fim dos meus dias,
Para a minha morte.