Ele sonhava com borboletas que andavam, com cogumelos falantes, fadinhas peitudas rodeando girassóis malvados. Ele imaginava coisas impossíveis e lugares esquisitos de cores berrantes e paredes de vidro, corredores na transversal, como labirintos. Desenhava sapos voadores e morcegos escarafunchados na terra, como tatus. Falava com as violetas dispostas na janela e fazia com elas bailes de debutantes, em que todas dançavam sozinhas e nenhuma tinha par. Ele andava a um palmo do chão e no vão entre seus pés e a realidade ele criava coisas inimagináveis, alucinações repletas de encanto e faz-de-conta. E, então, depois de um dia cansativo entre todos os personagens e territórios perigosos que criava, ele escrevia, concentrado e leve. A verdade é que ele só sonhava coisas esdrúxulas pra vesti-las de rimas. Até o dia em que uma menina de pele cor de rosa e cabelos azuis, virou pra ele seus olhos cor de abóbora e perguntou, por que ele não experimentava viver alguma coisa de verdade e depois escrevê-las (?). Afinal, quando se escreve qualquer coisa e ela vem pro papel, ela já se torna, por si só, uma ficção, uma história encantada que se pode transformar no que bem entender. Ele então o fez. Viveu três dias seguidos como as pessoas normais, mas não tinha vontade de pegar a caneta e passou a dormir às noites. Até que um dia, depois que sua mãe gritou lá de dentro: menino, para de sonhar senão você não vai ser ninguém na vida, ele pensou que não estava sonhando e que era impossível, àquela altura, não ser ninguém na vida, já que ele estava vivo e era filho dela. Então percebeu, não é que a menina cor de rosa tinha mesmo razão? A vida real já é uma história e tanto. E quando ele começou a escrever sobre coisas banais, como atravessar a rua, cortar o pão pela manhã e vestir-se pra escola, foi só pra fazer todo mundo ver que o mundo todo sonhava, porque a rotina, mesmo sem monstrinhos coloridos e meninas voadoras, já era um delírio bem grande. Ele já não sonhava pra escrever, ele escrevia e a realidade se tornava, então, um sonho tão rico quanto os países sem fronteiras que ele criava, repleto de loucuras e amores platônicos, ternuras e pavores intermináveis que ele coloria sem medida e embrulhava em versos. Quando, no futuro, os outros liam as coisas que ele escrevia, pensavam: como pode ter imaginação tão fértil??? Mas que coisa! A gente se põe a viver e ninguém pode acreditar que aquilo não é nada demais, só a vida. É... o papel transforma o cotidiano numa coisa mágica e quem lê, com olhinhos aguçados e empoçados de mesmice, ilumina as palavras com pó de pirlimpimpim e pensa: se eu pudesse escrever algo assim, punha-me a viver! Ah... se todo mundo soubesse...!
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segunda-feira, 12 de março de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
TEMPO DE AMY
Se eu ouço a Amy, teletransporto-me pra um buraco no tempo, nem passado, nem futuro, algo num intervalo, numa fenda entre o agora e uma cena não editada de uma fita. Uma rima bonita sem encaixe no texto, que a gente elimina sem dó e fica no ar, rondando como lixo na atmosfera, em volta dos satélites da Terra e as estações da Nasa, no espaço.
É tudo tão frio que a gente respira como quem fuma, soltando fumaça.
Um homem passou com uma prancha de esqui e me pareceu um skate comprido, mais charmoso. Afinal, o branco é uma cor fina. A neve só poderia ser chique.
Ninguém usa o futuro do pretérito, este tempo de poeta, tão Amy Winehouse, nestas terras altas, cheias de colinas e concreto duro de outros tempos. Ninguém usa gerúndio, como se nada estivesse em andamento enquanto se vive, como se só houvesse os tempos definidos e todos os outros, interstícios, passassem despercebidos.
Quando ouço Amy, penso num filme em preto e branco ou numa ópera. Penso em negros de subúrbios americanos e em cabelos brancos de novos amigos. Penso em cinema, arte, o obscuro, os motivos, tudo que a gente não vê e nos move, tudo que fica ao redor e não se absorve.
Penso no que é bonito, mas passa. E nos edifícios que nos envolvem e nos deixam um pouco bêbados, como os mantras entoados pelos indianos e os que oram nos cultos. Como os atabaques da umbanda.
Enquanto Amy canta, estou envolta num véu inebriante como incenso e ando por campos nublados, entre árvores vazias, só os galhos dispostos à espera do clima ameno de dias de primavera, e as casas balançam, com suas janelas pequeninas da Idade Média, enquanto a estrada à minha frente se adianta, com seus mistérios e coisas estranhas: uma alienígena perambulando entre as gentes, impedida de conjugar os verbos em todos os tempos.
Mesmo assim é doce e suave. Quem não é estrangeiro neste mundo grave?
Amy canta e me conduz por entre ruas tristes e lindas, como a Europa.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Queria desenhos
Com elas faço caras, nuvens e mares
Com elas preencho tudo de cores,
Ou retiro
Pincelando-as com a apatia mesma
Dos passados amores
Meus desenhos são as palavras,
Esvoaçantes como passarinhos
Ou tristes como as lágrimas
De causa desconhecida
Por vezes são tão vivas,
Repletas, cheias, sortidas
Outrora tão escassas, desprovidas
Da argamassa que edifica
Ilustram em branco e preto
O silêncio contido,
O sentimento perdido,
A conquista que se esvai
Meus desenhos são as palavras
Mas ainda são melhores
Porque delas além de imagens
Há sons, há paragens
Delas, simultâneas, caem
As mordaças habituais
E a mente enrustida
Meus desenhos são as palavras,
Coloridas ou esfumadas
Tocadas de fel ou de ar
São os melhores retratos,
Os mais caros bordados
A ilustrar o som que rima
Da dor que sai.
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