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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Gaiola acortinada

Vou ficar aqui sem fazer nada um pouco, só um pouco
Só o tempo de me refazer dos dias, do peso de tudo
As coisas leves alimentam mais: a natureza, as lembranças
Os versos, o silêncio, uma história, uma canção, um beijo
Deitada na areia vendo o sol se pôr, eu queria as tardes
Com o canto do galo e o mamoeiro na janela, as manhãs
Nas noites, lua, estrelas, seresta, corujas, firmamento
O que importa de verdade é simples, mas como é difícil
Manter simples, ficar rente à natureza, ouvir os passarinhos
Sentir o cheiro das flores no caminho, olhar nos olhos o vizinho
Ver as cores... As cores entram pela vista e nutrem a alma cinza
Os passos automatizados, que seguem na rotina, sem atalho
Verde, azul, amarelo, rosa, um beija-flor, o som de um sabiá
Na madrugada. Naquela casa há uma gaiola com cortina
Como é triste a prisão do passarinho que não vê o céu!
Se ele canta, é um lamento de tristeza, uma saudade
Uma súplica pelo azul da liberdade, pelo verde da esperança
E os nuances e contrastes do que se perde neste corre-corre.

Lári Germano

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Assombração


Olha pra mim
estou aqui sentada como sempre
à sua porta
espero saíres devagar, sem ruído
pé ante pé
pegar o casaco, a marmita, tirar o carro
“oi!”
olha
não saio deste lugar aqui
é interessante atrás do muro, as rãs escondendo-se do dia
encolhidinhas
olhos friccionados, pele enrugada
entre folhas, nos buraquinhos
e eu aqui
só pra te ver
espio
assobio até
pra ver se tu me notas
mas não queres me ver
pensas que sou um passarinho
desses tantos passarinhos que pousam por cá
e arrancas com o carro
...
vai
amanhã de novo espero-te
nesse lugar escondido
entre pedras
baldio e poético
uma brecha
uma chance pra você
distante uma nuvem negra se adianta
você parte, ela vem - eu
permaneço.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ladrão de versos


tinha as pálpebras inferiores lisas, como um peixe, mas seu olhar astuto e seu assovio e sua cabeça miúda, que ele movia com pequenos solavancos, também me faziam lembrar um passarinho
‎tinha os cabelos anelados, cor de favo, que o envolviam como nuvens, e uma doçura branda, quase feminina, mas seus beijos suaves viciavam, como batata frita
‎‎tinha os lábios finos unidos numa meia-lua crescente, quase um sorriso. E em tudo o mais que ele tinha, a melodia escorria, alta, comprida, como um intenso carinho
tinha o perfume das coisas guardadas, que se conservam intactas, mesmo velhas. O olhar fixo, adiantado, que mal piscava, o nariz adunco, perto dos lábios, aperfeiçoando os sentidos
tinha a pretensão de ter asas, girar o mundo de bicicleta. Mas apesar de tudo o que tinha, era ladrão de versos e, do objeto de que eram feitos, se apropriava, moldava-se fácil em palavras
e ninguém havendo por perto, acampava entre as rimas, com sua paz de deserto, seu amor devagarinho