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quinta-feira, 15 de março de 2012

A melhor pessoa do mundo

Se alguém me perguntar
Qual no mundo, a melhor pessoa
- Não tenho dúvida:
É uma criatura única e tão boa
Que se por aí eu andar à toa
Sem saber por que ou pra onde,
Não vendo sentido em nada,
Respiro os ares da infância
E me vem sua figura.
Por si só é uma dádiva
Ser companheira de jornada
De homem tão amável,
Sensível, delicado.
Não haveria melhor motivo
Pra levar adiante a vida.
Ser sua filha é ser felizarda.
E levá-lo sempre comigo,
Por mais ermo, o caminho,
Um prêmio sem paga.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Seus traços

Seu sorriso largo, de gengiva à mostra. Sua risada em momentos impróprios ou de coisas que a gente normalmente não riria. Seus cabelos finos, de duas cores, que você põe bobs quentes aos domingos, pra encheiar. Suas mãos bonitas, de dedos compridos, artísticos... suas unhas largas, quase sem cutícula.Suas cochas grossas de pele branca. Suas canelas finas a contrastar. O queixo anguloso, os olhos brilhosos, de pretos cílios. Seu jeito de cantar: agudos para o alto! Sua alma entusiasmada de melodias. Seu organismo frágil, sua cabeça que dói, seus dedos que tocam ligeiros as cordas da viola. Sua autoridade intimidante. Sua atividade constante. Sua entrega à família, ao trabalho, a Deus. Sua comida... O cheiro das suas gavetas. Sua voz grave de amanhecer. Sua pele fininha. Sua autenticidade, sua simpatia, sua simplicidade que cativa, seu calor que incentiva, sua vidência de mãe. Sua direção irrepreensível, seu andar devagarinho, seu toque raro, que te valoriza. Suas escolas, seus alunos, suas aulas, suas mestras, suas festas. Suas roupas de ficar em casa, suas novelas. Sua sonequinha da tarde nos braços do seu homem, meu pai. Seu ventre, seu semblante, seu colo: berço e oásis de vales e montanhas, de nuvens brancas e tempestades. Sua coragem e força de acreditar: nela adormeço envolta como nos charutos da infância, sua criança. Prossiga.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

DOCE NA VIDRAÇA

Um sonho em que não se acredita
Às vezes vinga, mas jamais torna
A ser bonito como a cobiça fora de hora
De um doce, por uma criança
Pedras e areia sob os sapatos
Pés doloridos de escalada
Arcos pendurados sobre a cabeça
E meninos escondidos sob togas
Pretas da maturidade que brota
Entre as paredes da universidade
Olho o horizonte e vejo casas
Que se sobrepõem nos morros
Umas sobre as outras, em alvoroço
E um laranja que se deita sobre azuis
Tão insossos quanto o gosto 
Da língua cortada de fiapos
Pelas frutas típicas penduradas
Nas árvores pequenas à beira da estrada
Continuo olhando a imagem sem tocá-la
Como atrás de uma lente fotográfica
Como o doce por detrás da vidraça
No bar da infância recriada

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Perfume de pai

Fragrância de pasta de barbear
O escuro do amanhã nos meus pensamentos perdidos
A infância irrigava minha barriga prenha
E já me faltava o que eu ainda tinha
E o ar impregnado tinha o cheiro adocicado
De meu pai fazendo a barba às quatro da madrugada
Enquanto isso eu pensava o que seria
Depois de tornar-me arcabouço de outra vida
Pra trás ficava o rumor do aquecedor aberto
Enquanto a espuma deslizava n’água
A pele de meu pai ressurgia, jamais tão clara
Depois daquele dia em que nasceu em mim
Essa nostalgia do que ainda estava
Num perfume de barbear, que era madrugada