Quero fazer uma poesia sem rimas, sem nenhum som, nenhuma lógica, nenhum pensamento. É possível fazer uma poesia-retrato? De momento? Como uma onda que quebra na areia, como aquele instante em que se sente ser a mais bela e a mais triste? É possível um poema daquele escuro minuto em que se fecha os olhos e se pede ao Universo um novo mundo, numa noite de réveillon? Eu quero um poema tão doce como uma música que encanta, apaixona, eleva, desperta na gente um transcender, uma amplitude inimaginável. Quero um poema que revele mais proximamente a delicadeza de um amor que nasce e nem sempre se materializa. Um poema é sempre uma tentativa de alcançar o mais profundo do ser, mas que, pra adentrar, não precisa cavar buraco, apenas apropriar-se de detalhes e retalhos da rotina. As florzinhas daquele vestido branco, molhados de água salgada, enquanto se pedia à Janaína a transformação de tudo. A solidão daquele copo plástico tocando os lábios com champagne originalmente francesa. O toque dos dedos viciados nos anéis dos cabelos novamente enrolados. Um olhar furtado, uma voz macia. Um cenário desconhecido, um planeta revisitado em sonho. Fazer um poema nublado como as imagens em sono, misturadas, tensas, ecléticas. Um poema perfeito e intacto como um amor platônico.
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terça-feira, 18 de outubro de 2011
sábado, 11 de dezembro de 2010
PALAVRAS CONTIDAS
Eu sei amar de longe. Não sei quando aprendi. Ou melhor: sei, mas não quero dizer agora. É uma vitória aprender a amar de longe. Acreditar que o pensamento é capaz de se comunicar sem as palavras ditas. Que as palavras podem se materializar sem a fala. Que as palavras se locomovem por ondas e são capazes, mais que as palavras ditas, não só de dizer, mas de tocar, de acender. Palavras estão represadas em mim e, apesar de fazer terapia para dar vazão a elas, elas dóem aqui. Porque são muitas e porque não são apenas as palavras que eu não digo. São também as palavras que eu não ouço. Mas não importa, vou navegar com minha alma sinestésica pelas ondas do pensamento até quem eu quero e despejá-las, letrinha por letrinha. E, com todas as letras tocarei e reverei bem de perto aqueles a quem quero dizer, a quem quero explicar, a quem quero bem, quero mal, quero não querer. Bem de perto, à medida que derramarei sobre ouvidos distantes e despreparados, todas as palavras contidas, vou respirar um pouco mais fundo, sentir um cheiro, fazer um vento. E quem sabe nesta hora não venha, com o ar que inspirarei, as palavras que não ouvi, que tanto me dóem e que talvez jamais eu ouça, a não ser assim: se eu for buscá-las.
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