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terça-feira, 29 de maio de 2012

Este ciúme

Um filme de terror, uma nuvem cheia de chuva
Os pensamentos em redor plainando - escuros, terríveis
Seu olhar se derramando em volta, por tudo
E você me escapando, como o tempo na ampulheta de vidro
Ergo as mãos pra cobrir o rosto, de dor envelhecido
E meu peito batuca, maltratado, sem vida
Arremesso pro ar verdades invencíveis
Deixando fora da porta, a felicidade que vinha
Que dançava, rodopiava nos cômodos vazios
Bendita a hora em que se quis ver o que a caixa continha
Rasgar o papel, desembrulhar a surpresa, encarar o presente
Todo aquele enfeite bonito e bom de ver, ao lixo!
E o que se queria - nunca aquilo. Sempre uma coisa mais bonita.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Posso ser

Posso ser um pedaço de sonho
Uma maça antes da mordida
Posso ser uma nuvem risonha
Uma estrela sozinha
Posso ser um amor platônico
E aquilo que você não alcança
A lâmpada da esquina
A moça da fotografia
O plano que não se realiza
Posso ser um passarinho raro
Que beberica no beiral da janela
Posso ser as cores apáticas
Da sua caixa de lápis
Aquela pintura em que você penetra
Tardes e tardes seguidas
Na pinacoteca
Posso ser aquele amor de infância
Que você não confessou
Posso ser o perfume da dama
Que acompanha suas noites
Posso ser a página do livro
Que você arrancou
Uma tarde de maio
Um desejo velado
Uma jura de amor
Posso ser o raio que se enxerga no horizonte
Numa noite de tempestade
Posso ser uma música suave
Que não te abandona
Posso ser uma colcha de retalhos
Uma cantiga, uma ficção
Posso ser uma cena de filme
Um docinho de aniversário antes do parabéns
Posso ser seu recorrente brocardo
Seu insistente refrão
Posso ser aquela chuva que não molha
A sombra que não se decifra
A chama da vela que não apaga
Posso ser uma letra num papel de carta
Uma imagem deturpada de verão
Posso ser um pôr-do-sol
Um bocado de feitiço
Um querer sem razão
Posso ser algodão doce na saliva
Uma imagem de televisão
Posso ser todas as coisas findas
E as que não se materializam
A eletricidade, o som
A felicidade, a imaginação
Posso ser

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Voyeurismo poético

Escrevo pra não explodir. Você, só me olha. O voyeurismo poético é uma nova modalidade de aliança. Ela não nos enlaça o dedo, mas acorrenta nossos corações. O corpo quer estar à solta, como um templo. Mas é impossível estar tão disponível na distância, no proibido.
Mutila-nos a consciência, essa coisa que nos impele a ser semideuses, apesar do corpo, da dor e de todas as nossas fraquezas. E sofre o espírito com a razão.
Que atrocidade esperar que paixão como essa acabe! É como deixar de regar uma planta viçosa e ampla.
Abdicar do que nos volta um pouco para o alto, nos aproxima do divino, da maravilha da onisciência, da onipresença, do amor sem condições, é uma aberração, uma autoviolência. Sufocar esse sentimento que quase nos afoga é como desfazer-se de um membro ou um sentido.
Mas quão livre seríamos sem os grilhões das convenções? Suportaríamos andar donos exclusivos de nossos destinos?
Responsáveis irrenunciáveis da nossa própria felicidade?