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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bilhete premiado

Eu disse que não escreveria,
Mas não posso.
É demais que eu não te invoque
Ao menos através
Destes versos estáticos.
Tudo na vida, é vontade.
A nossa será bastante
Pra ficarmos distantes
Estando tão ligados?
O que faremos da paixão?
Dar-lhe-emos o condão
De ser nosso pecado
Ou apenas o acaso
Que deságua em nossos braços
O destino premiado?

Voyeurismo poético

Escrevo pra não explodir. Você, só me olha. O voyeurismo poético é uma nova modalidade de aliança. Ela não nos enlaça o dedo, mas acorrenta nossos corações. O corpo quer estar à solta, como um templo. Mas é impossível estar tão disponível na distância, no proibido.
Mutila-nos a consciência, essa coisa que nos impele a ser semideuses, apesar do corpo, da dor e de todas as nossas fraquezas. E sofre o espírito com a razão.
Que atrocidade esperar que paixão como essa acabe! É como deixar de regar uma planta viçosa e ampla.
Abdicar do que nos volta um pouco para o alto, nos aproxima do divino, da maravilha da onisciência, da onipresença, do amor sem condições, é uma aberração, uma autoviolência. Sufocar esse sentimento que quase nos afoga é como desfazer-se de um membro ou um sentido.
Mas quão livre seríamos sem os grilhões das convenções? Suportaríamos andar donos exclusivos de nossos destinos?
Responsáveis irrenunciáveis da nossa própria felicidade?

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Juízo de areia


Será que a paixão tem uma razão de ser
Ou é só um batuque sem porquê
No nosso corpo moco?
Surdo, enquanto não há o som
Do desejo, que é água de mar,
Batendo nas beiradas da gente?
Erodindo tudo aos bocados,
Tornando areia, o juízo,
E pecado o sentido
De estar vivo?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Amor platônico


Há quem diga que a paixão
É a emoção do toque, a coisa da carne
Há vezes em que somente é sensação
Mas há vezes em que transcende
A realidade e prescinde do choque
É autossuficiente, não requer nada
A não ser a presença do ser
Que mera e simplesmente
Na sua existência, basta
E tudo ao redor se torna inaudível
Ininteligível, impraticável
Desnecessário, incongruente
Porque faíscas se espalham
E o corpo quer o diálogo
Que verte dos inconscientes
E essa é a magia admirável
O ingrediente, único necessário
Pro encontro cármico de dois seres
Platonicamente apaixonados

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Condição humana

Perdão, ó Pai!
Por gostar tanto desta condição humana
Do que aquece, inflama
E, de desilusão, se acompanha
Mas, que culpa haverá
Se a carne, sem a paixão, é fria?
Se a história, sem ela, não tem liga?
Os sentidos aguçados, prefiro à paz
E, em lugar de pensar, tocar
Deixar-me inflar de ar quente
E subir até o cume
Inspiração pra arte?
Ou neste ardume fugaz
A identidade inicial?
Aquela da qual não há escape?
Perdão, ó Pai, pois sou fraca
Nada além de criatura
Muito instinto motriz
Pra pouca ternura

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O amor pode ter muitos desenhos



O amor pode ter muitos desenhos.
Nunca podemos saber qual será.
Meu desejo era que a emoção do começo
fosse o impulso motriz.
Minha idéia era pegar a emoção e ir.
Com a força do início,
com a explosão de sentidos,
deixar-se levar e com a paixão
começar o amor que viria.
Mas o desenho do amor nem sempre é assim.
O amor pode ter muitos desenhos
e nunca poderíamos saber
que desenho tomaria o nosso amor.
E mesmo que ele não se erga
sobre a arquitetura que pensamos,
se ele de qualquer forma existir,
será o que planejamos,
sem saber que seria.
Mas também pode ser, às vezes,
que a paixão não passe de uma planta,
um planejamento, uma idéia,
que nunca levará cimento e pedra,
apenas areia e idéia.
Mas quem poderá saber
se o desenho que faz a paixão
tornar-se-á a estrutura
de uma história real?
O amor pode ter muitos desenhos
e também pode não existir.
Pode também o desenho
existir sozinho, por si.
O desenho que é só um plano,
um pensamento num papel,
ou num ideal qualquer.
Contudo ainda creio
que a paixão sempre será
o melhor desenho pra começar
um amor entre homem e mulher.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Regras

Quis afogar meu ser,
Meu liberto ser,
Em regras que em nada garantem,
Para, assim,poder seguir certa,
De que minha parte
Estava feita.
E, se mesmo assim,
Existisse o erro,
Este seria por azar,
Infortúnio, desmerecimento.
Mas a regra não me protege.
Assim como não me protege o medo.
Nem a culpa.
O que aconteceu com meus sonhos de criança?
Com os grandes sonhos
Que eu deveria ter?
Conhecer a Índia
Antes que a novela da moda
Trouxesse essa moda à baila?
Viajar o mundo,
Mergulhar nas praias, mais lindas,
Nos mares mais fundos.
Escrever livros, ser reconhecida,
Admirada?
Viajar mundo afora
E, ao mesmo tempo, poder escolher recolhida,
A minha morada?
O sonho de ser resplandecente,
De ser lembrada.
De ver o sol nascendo
Na madrugada,
Sem hora para nada.
Ter amores, tantos...
(Talvez este sonho eu persiga)...
Por que, afinal,
Queria eu o compromisso
Com alguém
Apenas para distanciar-me
Do romantismo que despertam as paixões?
E que às vezes dói?
Meu sonho de falar
Tantas línguas,
De ser linda, De ser lida...
E de ser eu mesma
Com a vida
Que eu escolhi! E que vivo...
Como vivi,
De cara limpa,
E feliz?
Por que a moral
Faz dos homens
Um todo igual
E impede que haja neles
A realização?
O que houve comigo?
A voz de meu coração
Abafada
Pelos zunidos,
Pelos princípios,
Dos quais não preciso,
Não partilho...?
Sim, porque, sou eu,
Um ser livre
De empecilho
Para a felicidade,
Que me aproxima
E invade sempre que arde
A paixão.
Por mais que doa,
Por mais que voe,
Por mais que seja
Constante ou instante,
Tanto faz.