sexta-feira, 21 de maio de 2010

Indecifrável




A vida segue seu curso contínuo,
Não é miragem.
É milagre que se revela
À medida que inova.
Mesmo quando mantém-se,
Até quando estaca,
A vida vai adiante,
Mesmo parada.
Não devolve os instantes,
Nem as horas inúteis,
Ou a juventude desperdiçada.
A vida é um braço do tempo,
Alcova do que fica.
Quase um fim em si mesmo,
Casa de poesia.
Embebida em virtudes
De indecifráveis mistérios,
É passagem sob a poeira de dúvidas
Estrada que continua e reveza
A mesma aparência assemelhada,
Entre sóis e luas.
Mas sempre é diversa.
E prossegue seu destino
À deriva de cifras
De seu percurso imprevisível.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Aos bocados


Falta-me o sentimento ameno, aquilo que se desenvolve ou se esvai aos poucos.
Falta-me a pouca fé nas promessas alheias.
Sobra-me a intensidade, a confiança, o cultivo do agora e das expectativas a perder de vista.
Sobra-me a crença no merecimento do encontro, a crença em estar finalmente liberta da procura.
Sobra-me o rastro das tentativas sem êxito.
Falta-me o apuro, a perspicácia, o vagar da construção tijolo a tijolo.
Sobra-me a desilusão do caminho em torno, sem muro de proteção, sem arrimo.
Quando sinto dor, de nada adiantam as palavras.
Nada pode dizer mais que o breu da falta. Que as cenas destorcidas pelo desfecho tortuoso da perda.
Ainda mais quando sobra.
Quando ainda há em ti o que no outro acaba, sempre  sobra.
E falta.

domingo, 9 de maio de 2010

Banho de espuma


Quero sentir um amor desses que fazem o ser evoluir... A tranqüilidade de um sentimento íntegro, total, permanente... Quero sentir conforto, alegria, bem estar. Apenas curtir, aproveitar, sem aquela insegurança constante pendendo sobre a cabeça, apertando a glote, como uma corda ao redor do pescoço. Ficar ao lado de alguém sem ter que falar. Mas também sem ser obrigada a reter as palavras por medo de represálias ou discórdia. A coisa da alma gêmea, bem sei que não existe. Mas existe a afinidade, aquela imprescindibilidade rara de um ser humano para o outro. Há isso nas amizades, não sempre, é claro. E na família, também - não com todos, infelizmente. Então há de haver a afinidade, a paz, também no amor. Eu quero mais que a paixão. Quero a calmaria da união contínua, até a rotina. Quero o desencadear dos acontecimentos pequenos que tornam a vida tão magnífica. Uma vez me disseram: “é pelas coisas simples que nos apaixonamos!” -, sim, é claro que é. São as mínimas coisas que nos impressionam. Não as grandes... As grandes, nem nos lembramos. Afinal, o que é grande mesmo? O impacto da vida está nos detalhes, no dia-a-dia, na esperança de se poder contar com alguém por toda uma vida. Mesmo que seja só uma doce esperança. Mesmo enquanto se vive um “acontecimento”, caberá na memória só a singularidade, o sorriso, o calor de um abraço, um gesto peculiar. É isso o que eu quero encontrar. A amizade, que é eterna, num amor pleno e meigo, suave e inteiro, como um banho de espuma.

sábado, 8 de maio de 2010

Meu coração não é de borracha

Meu coração não é de borracha
Às vezes ele se enche de água
É só saudade
Não há, nas fibras cárdias,
Tamanha elasticidade
Ele se estica e se esforça
Mas não comporta
Não se amolda tal qual
Às temporadas várias
Que vêm e vão
Ele chora
É só saudade
Passa o dia quase normal
Mas com a noite inunda
Enche-se da mágoa contida
E não mais suporta
Esvazia-se em lágrimas
E assim retoma
O tamanho natural
Mas não é nada
É só água
A Saudade que escorre
É só pra lembrar
Que a estrutura é de carne
Que aqui nada se amolda
Conforme as chuvas
Que a batida é viva
Que o órgão é fibra
Não é borracha
É visceral.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pérola

O que se quebra, quebrado está
Não conserta jamais
É objeto partido, apesar de continuar
Mesmo com um pedaço perdido
O que já foi, já era
Nunca mais será o mesmo
Este é o enigma
Que a maioria não decifra
Nem por toda uma vida
Preciosidades estão ao redor e sempre
Por aí ou contigo
Mas não é valiosa se é rompida,
Se da sua integridade é destruída
É o cultivo, o cuidado,
O esmero dedicado
Que a mantém jóia,
Que a preserva pra história
Que a conserva tesouro
Na memória, até o fim dos dias.