Mostrando postagens com marcador saudade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saudade. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de julho de 2010

Outro de mim




Há pessoas que têm medo de palavras. Medo de palavras feias, de palavras que machucam, de palavras que transmitem sentimentos de dor, de mágoa ou de luto. Como se não pudessem lê-las sem perder a capa que as protege dos sentimentos ruins. Como se não pudessem ouvi-las e continuar a seguir sendo elas mesmas. Há pessoas que preferem não ver e não ouvir. Sou assim também, às vezes. Mas gosto tanto de escutar como um poema, uma história, uma canção, podem dizer tanto sobre um sentimento que às vezes não conheço, mas que reconheço como se o tivesse vivido. E quando já o vivi então, é como se encontrasse um abrigo, como se reconhecesse que existo, que faço parte desta espécie tão ambígua, tão cheia de tampos e vigas. Ouço falar da saudade, na música de Chico, e sei que, mesmo se nunca a tivesse sentido, saberia o que significa, com o fundo de minha alma, com minhas lágrimas mais escondidas. E não me assusta a tristeza, a dor, o amor, a loucura. Assustar-me ia se não fosse da natureza deste ser que é você e que sou eu. Mas se todo mundo é assim, por que não tocar e sentir, por que não ouvir, por que não se ver nas palavras que sangram ou sorriem? Por que não se abrir pra todas as sensações de que se é capaz sendo assim: de carne? Não gosto do que é triste, mas gosto de sentir que sou igual a outro de mim, às vezes desejando o fim e às vezes imensamente capaz de persistir.

sábado, 8 de maio de 2010

Meu coração não é de borracha

Meu coração não é de borracha
Às vezes ele se enche de água
É só saudade
Não há, nas fibras cárdias,
Tamanha elasticidade
Ele se estica e se esforça
Mas não comporta
Não se amolda tal qual
Às temporadas várias
Que vêm e vão
Ele chora
É só saudade
Passa o dia quase normal
Mas com a noite inunda
Enche-se da mágoa contida
E não mais suporta
Esvazia-se em lágrimas
E assim retoma
O tamanho natural
Mas não é nada
É só água
A Saudade que escorre
É só pra lembrar
Que a estrutura é de carne
Que aqui nada se amolda
Conforme as chuvas
Que a batida é viva
Que o órgão é fibra
Não é borracha
É visceral.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Defeitos do que penso

Tudo terminou quando eu parti e não deixei de bagagem a saudade a quem eu deixava. O sonho do sonho perfeito acabava aos bocados, à medida que a distância aumentava, entre o que eu havia sonhado e o que se realizava. À medida em que diminuía a estrada que me reconduzia ao meu mundo. Há mistérios tão profundos que não são vistos. E sensações tão planas que se julga impossível não desvendá-las. Mas tudo é tão complexo! Às vezes nem o mistério é tanto que não possa ser explicado, nem a sensação é tão verdadeira quanto nítida. Mas como segregar os defeitos? Dos maus julgamentos, que instintivamente fazemos, e das doces ilusões que, inutilmente, plantamos? No céu de minhas nuvens havia anjos. Ruivos nos cabelos e castanhos nas tez curtidas. Mas nas nuvens não há castelos nem príncipes. Como segregar os defeitos que sempre existem no que queremos ou no que julgamos? Como ser menos humanos e não confundir os medos ou os desejos com os passos dados e os segundos passando, contando recados? Terá ruído o castelo ou finalmente se revelado o engano? Anjos não são vermelhos. Seus cabelos anelados refletem o dourado e suas mãos hábeis manipulam não a percussão, mas a harpa. Será este um julgamento? Ou um momento? Uma ilusão pelo medo desenhada? Como segregar os defeitos, as armadilhas da própria charada?