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terça-feira, 18 de maio de 2010

Aos bocados


Falta-me o sentimento ameno, aquilo que se desenvolve ou se esvai aos poucos.
Falta-me a pouca fé nas promessas alheias.
Sobra-me a intensidade, a confiança, o cultivo do agora e das expectativas a perder de vista.
Sobra-me a crença no merecimento do encontro, a crença em estar finalmente liberta da procura.
Sobra-me o rastro das tentativas sem êxito.
Falta-me o apuro, a perspicácia, o vagar da construção tijolo a tijolo.
Sobra-me a desilusão do caminho em torno, sem muro de proteção, sem arrimo.
Quando sinto dor, de nada adiantam as palavras.
Nada pode dizer mais que o breu da falta. Que as cenas destorcidas pelo desfecho tortuoso da perda.
Ainda mais quando sobra.
Quando ainda há em ti o que no outro acaba, sempre  sobra.
E falta.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O quê

Suco de laranja concentrado
Sem açúcar
Purê de mandioquinha
Lâmpada clarinha,
no abajur
Um ursinho
Filmes gravados
Guardanapos usados
Beterraba ralada
Temperada com limão
Lábios sempre molhados
Cheiro doce de maçã
Chocolate meio amargo
Sorvete “diet”
Cinema atrasado
Direção inusitada
Certeza de nada
Só emoção
Desenhos, palavras
Beijos açucarados
Abraço
Tesão
Latido estridente
Parada minuciosa
Certeza imprudente
Falta amarga
Parte o coração