segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Assombração


Olha pra mim
estou aqui sentada como sempre
à sua porta
espero saíres devagar, sem ruído
pé ante pé
pegar o casaco, a marmita, tirar o carro
“oi!”
olha
não saio deste lugar aqui
é interessante atrás do muro, as rãs escondendo-se do dia
encolhidinhas
olhos friccionados, pele enrugada
entre folhas, nos buraquinhos
e eu aqui
só pra te ver
espio
assobio até
pra ver se tu me notas
mas não queres me ver
pensas que sou um passarinho
desses tantos passarinhos que pousam por cá
e arrancas com o carro
...
vai
amanhã de novo espero-te
nesse lugar escondido
entre pedras
baldio e poético
uma brecha
uma chance pra você
distante uma nuvem negra se adianta
você parte, ela vem - eu
permaneço.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Coração camuflado

Eu invejo os corações que não ardem, aqueles corações serenos e estáveis. Aqueles corações que se contentam em ficar, ficar, ficar, porque sabem que o ficar é sempre tão passageiro. 
Mas meu coração não é assim. Meu coração é inflamável e requer adicional de periculosidade. Incendeia tudo - a mim primeiro.
Por isso ando por aí, craquelê de cinzas, vulnerável ao primeiro sopro. Já queimei inteira. 
Então fique longe, não se aproxime. Você vai querer que eu entenda, vai querer que eu reflita, que eu esteja. Mas eu... eu sou apenas os restos da fogueira.
E tenha cuidado! As cinzas têm calor, ainda queimam, além de poder sujá-lo inteiro com a fuligem da minha resistência.
Você pode sentir-se na trincheira, com o rosto enegrecido, camuflado, se você disser e se você tentar e se você quiser e se você teimar e se você soprar.
E tudo virá contra si: uma poeira quente e intensa, capaz de sujar, de queimar, de entupir seus ouvidos e olhos, os seus buracos corpóreos.
Jamais de perdoar, entender, esperar.
Sinto muito. Eu queria ter um coração em paz. Mas o que ficou em mim são só vestígios e pó. Só as brasas, só as chagas, nenhuma dó.

domingo, 19 de agosto de 2012

COREOGRAFIA DO DESTINO


Sabe dançar, se embala
Eu não sei
O amor é uma palavra bonita
Fácil de rimar
Sábado, um bom dia
Quero uma saia florida
Que no chão arraste
Minha identidade não passa
Recito
Mas você gostava que eu gritasse?
Seu corpo vai redondo
Amanhã é domingo
O som é grave
Talvez um tiro?
O despertador me acorda
Com único tinido
Pim!
Cai aqui
Nas minhas cadeiras sem rebolado
Me xinga com coragem, sem pudor
Tipo Paula Miasato
Quem não quer?
Seus nojos não convêm à libido
Me beija saliva
Me lambe sorvete
Se derrama, vai!
A que veio essa dança?
Encara
Não requebre à toa
Os balés exaurem
Vê se me erra
Ou deixa de coreografia.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Bolha de sabão


Uma bolha de sabão
Kraft Kraft
Daquelas gigantes que se inflam com cordas e engolem gente
Era essa a viagem
Pousou na calçada, desfazendo-se
A água era quase nada
E o sabão apenas o brilho azul na lembrança
Sua passagem, um devaneio
Veículo de estrutura leve
Pr’aqueles sonhos mais breves de se realizar
E a moça sem dentes
Kraft Kraft
Não tinha cabelos, nem mangas
E sorria com as mãos enquanto movia as cores da bolha no ar
Só uma criança banguela
A moldar um círculo que evapora
Enquanto sorri
Pluft 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cabo do Espichel


Estrada de alfazema e alecrim
tão perto das estrelas fica aqui
um despenhadeiro em cores claras
se estende
e toda gente pode ouvir
divino tambor de águas
estrada de poeira e alecrim
do alto, a ribanceira ri de mim
à beira do oceano
vejo como um filme
planos e sonhos
passando
à volta de Sesimbra
vindimas e finos sabores
com olhos no azul
que perpetua o horizonte
rumamos pra vida de antes
além-mar
e as lembranças e os pores-do-sol
ressurgem
numa serenata de adeus
estrada de areia e alecrim
encerra este caminho
e remete a uma era de dinossauros
fica meu rastro sobre essas pegadas
levo as falésias e o Sado
cobiço um fado
até à vista, Portugal