quarta-feira, 27 de abril de 2011

HOMEM CASADO


Sua pele me parece macia
E sua idade menor
Me encanta sua maneira de morder o lábio debaixo
Folgada e flacidamente
Seu nariz de haste fina, com abas largas
Seu andar displicente
Toco meus lábios com a ponta dos dedos
Pensando nos seus
Procuro no seu olhar indiferente e vago
A itenção escondida
Na sua calma voz de um só tom
As palavras perdidas
Mas no seu falar sem som sobressalente
Não há melancolia
Da sua voz modal, em meus ouvidos
Faz-se música e me embala
Prescindo do que é dito
Mas são a inteligência serena
As frases sensatas e calmas
Que me condenam à hipnose
Que nem o amarelo da aliança
Com estridência, reluzindo
Acalma.Não é empecilho
Seu compromisso social
Apenas drama, ingrediente primordial
Pra boa poesia. - Ou martírio?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tetas de preta


Tinha uma cor escura
Nas extremidades e nas juntas
Um excesso tanto de risadas e assunto
Como de coração 
O jeito atrevido de quem quer ser querida
E se arremessa à frente, sem assertivas
Um não se aprofundar até bonito, alegre 
Apesar de evidente
E caiu-lhe bem ser mãe
O olhar generoso finalmente útil
A popularidade máxima perante um ser, enfim
Mamilos em riste, tetas à mostra
Postas a amamentar
Tetas de pontas pretas, repletas
Expostas em oferta
E finalmente dispostas
A angariar real afeto 
E verdadeira fã
Sem afãs outros, ou melhores
Que tê-la por perto
Alimentar-se dela
E chamá-la de mãe

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Condição humana

Perdão, ó Pai!
Por gostar tanto desta condição humana
Do que aquece, inflama
E, de desilusão, se acompanha
Mas, que culpa haverá
Se a carne, sem a paixão, é fria?
Se a história, sem ela, não tem liga?
Os sentidos aguçados, prefiro à paz
E, em lugar de pensar, tocar
Deixar-me inflar de ar quente
E subir até o cume
Inspiração pra arte?
Ou neste ardume fugaz
A identidade inicial?
Aquela da qual não há escape?
Perdão, ó Pai, pois sou fraca
Nada além de criatura
Muito instinto motriz
Pra pouca ternura

quarta-feira, 9 de março de 2011

O amor não tem palavras


Dizer do amor
É como tomar dele a magia
Um poder que nos rende
Domina
É tornar humano
Uma essência divina
Então tenho medo de dizer
E tornar imperfeito
O que é originalmente puro
Sem defeito, sem ranhura
Há uma coisa no ar
Que não há palavra que decifre
Melhor inebriar-me dela
E a contemplar muda
Reverenciá-la em êxtase
Enquanto ainda dura

Horizontes de silêncio

Nas cidades pequenas
Não se perde o horizonte
A estrada se alonga e vai
Até onde o sol se põe
E a dois seres que se cruzam
É possível o silêncio
Que dialoga com o íntimo
Do encontro que nasce
Apesar do desconhecido
Porque o vértice é fugaz
Entre dois seres lado a lado
Há o que foge e o que fica
O que vai e o que corre atrás
E assim se constrói o universo do encontro
Pois apesar do conexo
Há o indivíduo complexo
Que se quer deixar estar como está:
Apesar do encontro: Indivíduo
Mas adiante algo nos liga
A outro que já não está, mas que fica
Num gesto, ou palavra
No medo, ou numa lágrima,
Num dedo que se insinua no meio da palma
Ou nos lábios que se unem
Bochechas flácidas
A assoviar...
E as palavras novas que são ditas
Carregam em si nostalgia
De outros encontros
Horizontes esquecidos
Que se reanunciam