sábado, 15 de agosto de 2009
Segredo
Às vezes, as palavras, tão minhas amigas, tornam-se desnecessárias, supérfluas, vazias. Porque palavras não são tudo. Há um mundo que é obscuro, ou interno, ou escuso. É o segredo. O que acontece só dentro, em compartimentos. É tudo o que não se revela. É uma magia secreta, que acontece oculta. E o que acontece assim e não se divide, é como um traço. A diferença que faz no mundo, é só da energia que emana. Há coisas que acontecem dentro, e são como um sonho. No externo, só o que se sabe, é o que emana, no semblante que ri, na silhueta que dança, submersa nas ondas de calor das almas acesas. O segredo é o que falta no mundo. O contido, o assobio nos pensamentos, cantando sereno, secreto, o sorriso nos lábios, discreto: efeito do que se omite, mas existe. O que há por dentro e, em silêncio, acontece. O desejo, a idéia formada, a amizade velada. Segredo. O que falta no mundo. O mistério, o silêncio, a permissão de ser, à deriva de tudo, dos mares, dos homens, do julgamento, dos olhares e das palavras sem argumento. Onipotente até no absurdo.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Eu não tenho bula
O que é poesia?
Além de poesia só?
Um retrato de um sentimento
Que sem a escrita
Ficaria ao vento,
Etéreo, solto ao ar.
Poesia é só um pedaço
De um sentimento, de uma emoção,
Que sem o formato dos versos,
Nem pelo coração seria captado.
Poesia é uma fotografia.
Não é uma receita, uma bula,
De como funciona a pessoa.
Sequer uma dica,
De como passam os dias,
Como um “reality show”.
Poesia é só arte.
É brincadeira de palavras
Que julga o autor declamar.
Mas, como já disse,
As palavras têm sua própria vontade.
Não tente desvendar o poeta
Pelas frases que inverte,
Com rima e melodia.
Poesia é só um retrato,
É fotografia.
Sem ela, iria o sentimento
Ao vento, pra sempre,
Sem retorno ou contemplação.
Com ela, a emoção fixa-se eterna,
Estática, concreta.
Permanente, pelas estações.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Boemia rememorada
Muitas coisas misturadas: primeiro um sentimento de decepção, a desesperança ressurgindo intacta. Depois a amizade, o desabafo, a cumplicidade, o sentimento solidário tornando as coisas mais fáceis. E aí um brinquedo, uma identificação, uma leve boemia, novos rostos, que continuam novos porque são rostos de estranhos, que continuam estranhos, em um balcão. Adiante, ainda, o encontro, as semelhanças que repelem. Porque parecidas, assustam-se, separam-se, percorrem caminhos oblíquos, atalhos díspares pra mesma saída. E, ao final, a despedida ameaçada pelo desejo calado, pelas palavras contidas, melhor ditas no silêncio, no abrigo do toque, na ternura almejada, mas, por enquanto, apenas tocada pela intenção.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
O amor pode ter muitos desenhos
O amor pode ter muitos desenhos.
Nunca podemos saber qual será.
Meu desejo era que a emoção do começo
fosse o impulso motriz.
Minha idéia era pegar a emoção e ir.
Com a força do início,
com a explosão de sentidos,
deixar-se levar e com a paixão
começar o amor que viria.
Mas o desenho do amor nem sempre é assim.
O amor pode ter muitos desenhos
e nunca poderíamos saber
que desenho tomaria o nosso amor.
E mesmo que ele não se erga
sobre a arquitetura que pensamos,
se ele de qualquer forma existir,
será o que planejamos,
sem saber que seria.
Mas também pode ser, às vezes,
que a paixão não passe de uma planta,
um planejamento, uma idéia,
que nunca levará cimento e pedra,
apenas areia e idéia.
Mas quem poderá saber
se o desenho que faz a paixão
tornar-se-á a estrutura
de uma história real?
O amor pode ter muitos desenhos
e também pode não existir.
Pode também o desenho
existir sozinho, por si.
O desenho que é só um plano,
um pensamento num papel,
ou num ideal qualquer.
Contudo ainda creio
que a paixão sempre será
o melhor desenho pra começar
um amor entre homem e mulher.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Esclarecimento
Esclareço: não é que a vontade seja ruim ou boa. É só uma conseqüência de quem quer muito, de quem não se conforma ou não se contenta com pouco. Mas, como se sabe, na vida o perfeito é o equilíbrio, é a medida exata, é a contenção dos instintos, não se deixar seduzir completamente pelas facilidades. Pena que isso me falta. O apetite é sempre maior do que recomenda o bom senso. E quando digo apetite, refiro-me a tudo. Refiro-me de novo à vontade. À vontade de que as coisas que eu gosto, nunca se acabem. O apetite não é só da comida, da qual gosto muito. Mas é também apetite de sol, que adoro: a energia do sol em mim, corando a minha pele, contra toda a ética da beleza. Apetite de mar, de água salgada na pele e nos cabelos até que ambos esturriquem. Apetite das pessoas que eu gosto, e dos amigos queridos, os quais quero sempre rindo, sempre de bom humor. Apetite de amor, de volúpia e de doçura, numa mistura quente e fofa, onde eu podia permanecer mergulhada por dias, sem respirar. Vontade de tudo o que gosto, de tudo o que é bom, sem medida, sem hora pra acabar. O desejo que me impele é tão grande, e o apetite tão farto, que é impossível não passar vontade. Sinto vontade de morar perto do mar, e de queimar a pele sob o sol todos os dias, entre meus amigos, todos sorrindo, e meu amor, que, por enquanto, não conheço mais. Sinto vontade de passar as tardes dormindo, preguiçosa, no peito de quem amo. E de conversar horas e horas, e brincar um monte, quando o assunto acabar. Sinto vontade de concluir as melhores e mais importantes coisas e dividí-las com sentido, entre tantos, entre muitos, todos que compreendam o que, no fundo, digo. Às vezes parece uma vontade pequena, uma busca imediata de consolo e prazer. Nem mesmo é um sonho, é só uma necessidade, uma procura, um combustível pra permanecer. Vontade. Apetite. Fome. E falta de limites para o prazer. Um pouco de vício, de preguiça, de culto ao ócio produtivo capaz de despertar os sentidos e o raciocínio para o motivo final, o objetivo comum. A realidade é bem diferente. Sigo na lida diária, como todo assalariado, atrás da sobrevivência. E podia ter muito mais do que tenho se, ao invés de entregar-me às vontades, que sempre serão maiores do que aquilo que posso ter, entregasse-me à perseguição de meus títulos, como reles batalhadora que sou. Mas o que posso fazer, se a vontade é tamanha? Sigo buscando satisfazê-la um pouco. Entre meados de lírica e louca. Tudo o que mais passo, é vontade. Mas tudo bem, faz parte de ser o que sou. Já alcanço o equilíbrio em muitas coisas. O processo de normalização já operou em mim seus milagres. Mas, de verdade, o que é a normalidade? Tenho uma amiga que diz que sua principal virtude é ser normal. E eu não julgo mal. Penso que ser normal é realmente bom. Ser normal é não questionar as regras, é viver encaixada no mundo, sem desconexão. É estar encontrada, confortável, serena. Meu sonho é a normalidade, é o estado de coisas em que as vontades serão poucas perto de todo o trabalho. O estado de coisas em que a pessoa relaxa, sem esperar nenhum novo acontecimento. Sem depender de um fato novo ou uma atitude do outro. Estou longe da normalidade. Meus instintos atormentam-me. E ainda, tudo ou quase tudo o que quero, não tenho. Tudo o que mais passo nesta vida, é vontade. Nem sempre será assim. Pode ser que ocorra a adaptação completa, o encontrar-me comigo mesma ou com outro que me encontre e me queira assim mesmo. Mas há a possibilidade de que estas vontades estendam-se folgadas, donas de mim por muito tempo ainda. Não sei se a adaptação deve vir antes que o conforto da serenidade, ou se a vontade deve ser suprida para que a adaptação aconteça. De qualquer modo, segue o dilema. E as vontades permanecem. Enormes. Vorazes. Apetite de novidades. Mundo de sonhos aqui. Talvez os mesmos que me impulsionam a criar, a escrever, a imaginar, a tentar desvendar o segredo, como Sócrates, como Weber, como tantos, como Sartre. Um segredo que não sei se serve à humanidade, ou só a mim e à busca de satisfação desta vontade. Porque, por enquanto nesta vida, o que mais passo, é vontade.
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