Muitas coisas misturadas: primeiro um sentimento de decepção, a desesperança ressurgindo intacta. Depois a amizade, o desabafo, a cumplicidade, o sentimento solidário tornando as coisas mais fáceis. E aí um brinquedo, uma identificação, uma leve boemia, novos rostos, que continuam novos porque são rostos de estranhos, que continuam estranhos, em um balcão. Adiante, ainda, o encontro, as semelhanças que repelem. Porque parecidas, assustam-se, separam-se, percorrem caminhos oblíquos, atalhos díspares pra mesma saída. E, ao final, a despedida ameaçada pelo desejo calado, pelas palavras contidas, melhor ditas no silêncio, no abrigo do toque, na ternura almejada, mas, por enquanto, apenas tocada pela intenção.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
O amor pode ter muitos desenhos
O amor pode ter muitos desenhos.
Nunca podemos saber qual será.
Meu desejo era que a emoção do começo
fosse o impulso motriz.
Minha idéia era pegar a emoção e ir.
Com a força do início,
com a explosão de sentidos,
deixar-se levar e com a paixão
começar o amor que viria.
Mas o desenho do amor nem sempre é assim.
O amor pode ter muitos desenhos
e nunca poderíamos saber
que desenho tomaria o nosso amor.
E mesmo que ele não se erga
sobre a arquitetura que pensamos,
se ele de qualquer forma existir,
será o que planejamos,
sem saber que seria.
Mas também pode ser, às vezes,
que a paixão não passe de uma planta,
um planejamento, uma idéia,
que nunca levará cimento e pedra,
apenas areia e idéia.
Mas quem poderá saber
se o desenho que faz a paixão
tornar-se-á a estrutura
de uma história real?
O amor pode ter muitos desenhos
e também pode não existir.
Pode também o desenho
existir sozinho, por si.
O desenho que é só um plano,
um pensamento num papel,
ou num ideal qualquer.
Contudo ainda creio
que a paixão sempre será
o melhor desenho pra começar
um amor entre homem e mulher.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Esclarecimento
Esclareço: não é que a vontade seja ruim ou boa. É só uma conseqüência de quem quer muito, de quem não se conforma ou não se contenta com pouco. Mas, como se sabe, na vida o perfeito é o equilíbrio, é a medida exata, é a contenção dos instintos, não se deixar seduzir completamente pelas facilidades. Pena que isso me falta. O apetite é sempre maior do que recomenda o bom senso. E quando digo apetite, refiro-me a tudo. Refiro-me de novo à vontade. À vontade de que as coisas que eu gosto, nunca se acabem. O apetite não é só da comida, da qual gosto muito. Mas é também apetite de sol, que adoro: a energia do sol em mim, corando a minha pele, contra toda a ética da beleza. Apetite de mar, de água salgada na pele e nos cabelos até que ambos esturriquem. Apetite das pessoas que eu gosto, e dos amigos queridos, os quais quero sempre rindo, sempre de bom humor. Apetite de amor, de volúpia e de doçura, numa mistura quente e fofa, onde eu podia permanecer mergulhada por dias, sem respirar. Vontade de tudo o que gosto, de tudo o que é bom, sem medida, sem hora pra acabar. O desejo que me impele é tão grande, e o apetite tão farto, que é impossível não passar vontade. Sinto vontade de morar perto do mar, e de queimar a pele sob o sol todos os dias, entre meus amigos, todos sorrindo, e meu amor, que, por enquanto, não conheço mais. Sinto vontade de passar as tardes dormindo, preguiçosa, no peito de quem amo. E de conversar horas e horas, e brincar um monte, quando o assunto acabar. Sinto vontade de concluir as melhores e mais importantes coisas e dividí-las com sentido, entre tantos, entre muitos, todos que compreendam o que, no fundo, digo. Às vezes parece uma vontade pequena, uma busca imediata de consolo e prazer. Nem mesmo é um sonho, é só uma necessidade, uma procura, um combustível pra permanecer. Vontade. Apetite. Fome. E falta de limites para o prazer. Um pouco de vício, de preguiça, de culto ao ócio produtivo capaz de despertar os sentidos e o raciocínio para o motivo final, o objetivo comum. A realidade é bem diferente. Sigo na lida diária, como todo assalariado, atrás da sobrevivência. E podia ter muito mais do que tenho se, ao invés de entregar-me às vontades, que sempre serão maiores do que aquilo que posso ter, entregasse-me à perseguição de meus títulos, como reles batalhadora que sou. Mas o que posso fazer, se a vontade é tamanha? Sigo buscando satisfazê-la um pouco. Entre meados de lírica e louca. Tudo o que mais passo, é vontade. Mas tudo bem, faz parte de ser o que sou. Já alcanço o equilíbrio em muitas coisas. O processo de normalização já operou em mim seus milagres. Mas, de verdade, o que é a normalidade? Tenho uma amiga que diz que sua principal virtude é ser normal. E eu não julgo mal. Penso que ser normal é realmente bom. Ser normal é não questionar as regras, é viver encaixada no mundo, sem desconexão. É estar encontrada, confortável, serena. Meu sonho é a normalidade, é o estado de coisas em que as vontades serão poucas perto de todo o trabalho. O estado de coisas em que a pessoa relaxa, sem esperar nenhum novo acontecimento. Sem depender de um fato novo ou uma atitude do outro. Estou longe da normalidade. Meus instintos atormentam-me. E ainda, tudo ou quase tudo o que quero, não tenho. Tudo o que mais passo nesta vida, é vontade. Nem sempre será assim. Pode ser que ocorra a adaptação completa, o encontrar-me comigo mesma ou com outro que me encontre e me queira assim mesmo. Mas há a possibilidade de que estas vontades estendam-se folgadas, donas de mim por muito tempo ainda. Não sei se a adaptação deve vir antes que o conforto da serenidade, ou se a vontade deve ser suprida para que a adaptação aconteça. De qualquer modo, segue o dilema. E as vontades permanecem. Enormes. Vorazes. Apetite de novidades. Mundo de sonhos aqui. Talvez os mesmos que me impulsionam a criar, a escrever, a imaginar, a tentar desvendar o segredo, como Sócrates, como Weber, como tantos, como Sartre. Um segredo que não sei se serve à humanidade, ou só a mim e à busca de satisfação desta vontade. Porque, por enquanto nesta vida, o que mais passo, é vontade.
domingo, 2 de agosto de 2009
Vontade
Sorte de quem
Sempre tem o que quer.
Sorte de quem
Não passa vontade
E tem ao alcance
Sempre o que deseja
Sempre o que arde,
Na insatisfeita carne.
Porque, em mim, o que sempre
Sobra, é muita vontade,
Porque essa vontade é enorme.
Minha vontade é injusta,
Sempre faminta, disforme.
A vontade em mim é voraz
Por ela anseio o ócio,
Quando posso ter o que quero
- que não é valioso, esclareço,
Mas depende do outro.
Porque sempre quero o desejo
Sempre quero o corpo,
O beijo, o pensamento...
Quero tanto, quero tudo
Saciá-la seria absurdo,
Passo vontade aos bocados!
Mas o ócio é o que almejo,
Ao lado de quem quero,
De quem espero o desejo.
Tenho vontade de dormir
E acordar junto,
De amar e tocar e acariciar,
E de simplesmente estar,
Viciada que sou, em amor.
O que mais passo em minha vida
É vontade.
Mal humano ser resolvido
Mal resolvido... Quem com mais de 30, não será? Um pouco, pois sim!, porque muito está claro que é problema. Mas, quem não guarda em si uma dor, com a idade que tenho, é porque não viveu. Pois não há como viver sem perdas, sem marcas. Não há como viver sem amar, e tendo amado, não há como dizer que, em algum lugar, não exista algo mal resolvido. Porque também é de praxe que quem ama, vez ou outra, não seja correspondido. Ou que, havendo a correspondência, hora ou outra se acabe antes no outro, o sentimento nutrido. Mas, entenda-me, não é o mal resolvido daquele que não se decidiu. Mas o mal resolvido de quem convive com seus traumas, de quem, apesar de decidido, tem que lutar com suas falhas, e prosseguir. Mal resolvido porque o amor que acaba, pode, externamente, resolver-se. Mas dentro sempre fica o que faltou, o que se quis e não se teve, a figura do outro, que morreu. O mesmo outro que, ao conviver contigo, transformou-te e, ao deixar-te, transformou-te novamente, no que hoje você é. O mesmo outro que foi objeto de teu amor e de tuas juras tão eternas, e que se indo, levou consigo promessas e intenções mal resolvidas. Estas, mal resolvidas, porque nunca se tornarão concretas. Nunca terão correspondido ao que, um dia, resolveu-se que seriam. É de bem que sejamos mal resolvidos, porque esta é a estrada do homem. Juntar seus cacos, desenhar sua história com muito do que realizou e com tudo o que sonhou sem ter realizado. É a junção destas duas coisas, o ser humano. O mal resolvido ser humano. Mesmo o mais ligeiro, mesmo o que não olha pra trás e jamais revê seus atos. Até esse, no fim, terá sido tudo o que resolveu ser e tudo de mal resolvido que o conduziu a ser o que ele foi.
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