segunda-feira, 13 de junho de 2011

COMO UM CAVALO


Eu não sei voar
E ainda assim
Só sei voar
Como um cavalo selvagem
Crinas ao vento
Sujeito ao tempo e ao perigo
Escrevo na parede do quarto
"Eu não sei voar, isso é ilusão"
Mas não adianta
Ao menor descuido
Meus pés se elevam
E do chão flutuam
Animal voador
Mesmo domado intimida 
Um animal voador é magnífico
O solo quente e árido
Não fere seus cascos
De tão veloz o galope
Quase não atritam com o chão
Decola pro horizonte
Num tiro rítmico de cavalo
Eu não sei voar
E ainda assim não desisto
Só sei voar
E imitar um cavalo arisco
Exercitando sua perfeição
Num vôo incrível

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O nome deste poema não tem nome



Flácidas palavras me alegram com seus éles entrelaçados entre consoantes pálidas. Adoro dizer seu nome, e por causa dele descobri que gosto do éle que se enlaça no bê, no pê, no gê, no éfe e no cê, compondo sons inflamados, como clima e flauta, clave e blusa, fluido e nublado. Também gosto de placa, de glória, de Plutão, de Gláucia. E é claro, gosto de Clara, de clareza, de plástico, glicerina, de clorofila. Como gosto de flerte, de Cláudio, de teclado, de Glauber. Adoro mais ainda Clarissa, plasma, templo, plácido. E Clóvis, (minha sina), Blumenau, um destino. Também gosto de planície, do Pluto, de plush, de planta. E ainda de clone, de close, de clamor, de glamour, de gliter, de bloco. Gosto do Tony Blair, apesar de passado, e de Platão, sempre atual. E gosto de tablado, de público, de flutuar ao teu lado. Gosto de flores, de plural, de glossário. De Plínio nem tanto. Mas gosto de Flávio, de Kleber, de sorvete de flocos, de simplicidade. Já Claudete, blindagem, blá blá blá, fluconazol e problema: passo. Mas todas as palavras que, como seu nome, embalam-se numa língua que sobe pro alto, são de dicção formidável. Tem também explicação, aflição, inflamação, conclusão, pleonasmo. Um primo chamado Cleiton, um sonho chamado Glauco. Tem glúten no pão de hambúrguer, e no francês e no de forma, não tem jeito. Tem o globo e a gleba, também tem pleura, também tem pleito, também tem pluma, também tem clero. E a oclusão insegura. E o Klecius da sala ao lado. Tem também o Suplicy, político que gosto. E tem flancos que sobram, e glúteos à mostra, aos montes. Tem gladiador, glicose, glote. E Cleusa, reclusão, suplício, Plutarco. Tem flatulência, glaucoma, clube, glub glub. E tem seu nome, que não digo porque respeito, mas que dá vontade, isso dá, é inevitável. Mas resisto. Em consideração ao bloqueio que trazes: emblema, blasfêmia, oblíquo. E num fluxo incontido de hemoglobina, um blues glacial, Clark Gable, uma flâmula, um clique. Não quero flagrante, nem fluoxetina, nem claustro. Nem catástofLe, nem desastLe, nem pLisão, ou qualquer outra palavra do Cebolinha. Mas o ciclo completo é bem-vindo: a glândula, o clitóris, a plêiade, o clímax.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ESTE É O LUGAR QUE TE CONCEDO


Este é o lugar que te concedo
Veja:
Tem músicas tantas
E mil pensamentos
Cores quentes
Emolientes
A nos enlaçar
Abraça-me por dentro agora
Bem no centro
Onde não há dor
Nem impedimento
É só amor
Doçura
Sentimento
Toca-me com a ponta dos dedos
Senão afunda
A textura é fofa e se move
Qual nuvem no firmamento
Aprecia com a língua
Suavemente
Este é o lugar
Fremente e singular
Que te concedo

sábado, 4 de junho de 2011

Intitulo-me: poeta


Escrevo da seguinte maneira: primeiro, uma coisa a dizer na mente. Uma conclusão, um ponto qualquer. Depois, sento-me, pensamento firme no cerne do que quer sair, e teclo qualquer coisa. E então, as palavras vêm em torrente e se amontoam sozinhas, de própria vontade. E elas são dançarinas, gostam de rima, se organizam pelo som. Então, é assim que se forma a poesia ou qualquer coisa outra que eu escreva. Sinto-me mais um instrumento do que a mentora da formação de meus textos autônomos, praticamente independentes. Aí me perguntam: o que você lê? Quais os poetas que te guiam? Nenhum. Poxa!, leio pouca poesia. Como posso ler poesia, se escrevo poesia? E todos ficam embasbacados e se riem da minha petulância em dizer-me poeta. Uma poeta que não lê os grandes poetas? Eu os leio, e os considero infinitamente melhores que eu. Contudo, escrevo e sinto entre eles e mim, uma ponte. É através do que escrevo que os alcanço. Não sou devota de nenhum, porque escrevo o que sinto, à minha maneira. Leio o que escrevo e admiro minha obra, porque sei que não vem só de mim. Estou mergulhada no mesmo limbo de todos os poetas. E por isso escrevo. Não importa, exatamente, o reconhecimento alheio. O exercício e o movimento do que impulsiona as palavras brincalhonas que pululam no meu ser, como grilos atrevidos e cantores, é parte de mim . É esta a minha devoção para com os grandes mestres. E me rende, até contra a vontade. É anterior e superior à minha autocrítica e ao temor da reprovação ao redor. E é por isso que ouso intitular-me assim: poeta.

O que ele não leva, aumenta


O tempo tudo leva. Arrasta pra dentro de si as trevas que porventura vierem e as venturas que se aventuram sobre a gente, com seu viés pungente de eternidade. Tudo bem. O tempo e sua majestade levam os horrores, algumas lágrimas e outras coisas. Mas e os amores? O que ficam dos amores que o tempo leva? Depois que passam, ainda ficam deles os sabores, às vezes ainda mais açucarados e belos do que foram de verdade. Dos meus, ficam os versos, as palavras que se amontoam de própria vontade, com som e sem compostura.
Não sei se gosto desta coisa do tempo levar, de tudo passar, de despedir-se do que ainda está, porque no futuro não estará, mesmo que ainda esteja agora. Vai passar... Só o tempo. O tempo é amigo do esquecimento. Mas pode também ser mais. Pode ser apenas instrumento de recrudescimento do que fica. E a gente nunca sabe o que fica. Porque o tempo... O tempo leva tudo, quase tudo. Mas o que ele não leva, ele aumenta.