Escrevo da seguinte maneira: primeiro, uma coisa a dizer na mente. Uma conclusão, um ponto qualquer. Depois, sento-me, pensamento firme no cerne do que quer sair, e teclo qualquer coisa. E então, as palavras vêm em torrente e se amontoam sozinhas, de própria vontade. E elas são dançarinas, gostam de rima, se organizam pelo som. Então, é assim que se forma a poesia ou qualquer coisa outra que eu escreva. Sinto-me mais um instrumento do que a mentora da formação de meus textos autônomos, praticamente independentes. Aí me perguntam: o que você lê? Quais os poetas que te guiam? Nenhum. Poxa!, leio pouca poesia. Como posso ler poesia, se escrevo poesia? E todos ficam embasbacados e se riem da minha petulância em dizer-me poeta. Uma poeta que não lê os grandes poetas? Eu os leio, e os considero infinitamente melhores que eu. Contudo, escrevo e sinto entre eles e mim, uma ponte. É através do que escrevo que os alcanço. Não sou devota de nenhum, porque escrevo o que sinto, à minha maneira. Leio o que escrevo e admiro minha obra, porque sei que não vem só de mim. Estou mergulhada no mesmo limbo de todos os poetas. E por isso escrevo. Não importa, exatamente, o reconhecimento alheio. O exercício e o movimento do que impulsiona as palavras brincalhonas que pululam no meu ser, como grilos atrevidos e cantores, é parte de mim . É esta a minha devoção para com os grandes mestres. E me rende, até contra a vontade. É anterior e superior à minha autocrítica e ao temor da reprovação ao redor. E é por isso que ouso intitular-me assim: poeta.
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sábado, 4 de junho de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Folha que cai
Tudo como um sonho. Inspiro profundamente e há um cheiro tênue daquela flor noturna intensa, que aos poucos se esvai, com o dia que nasce. Tudo torna à claridade. A névoa do amanhecer ainda anuvia a vista, anestesia as sensações oblíquas. Mas a revelação se anuncia. E, ao redor, a magia imprescindível ao enfrentamento do escuro, cai como uma folha seca. E ninguém nota. Depois do raiar do sol, é só mais uma folha na terra, depois do seu dia de estrela. E o essencial se modifica. As ilusões da noite tornam-se pequenas e desarraigadas do dia.
E, depois da magia, o que fica? A visão. Há coisas que vão, há coisas que ficam. Não importa quantas folhas caiam, desprovidas de vida.
Mas logo virá outra noite, outros sonhos e aromas. E no percurso noturno, hei de convencer a mim mesma não sobreviver sem uma única folha escolhida, verdinha e tenra, pendurada entre as outras. E haverá juras e ameaças de morte. Até que de novo amanheça. E novamente não haja lágrimas, nem ilusão, nem outra dimensão necessária além desta.
Poeta... Um ser incorrigivelmente teatral.
Os sentimentos são estações do tempo, que ele atravessa.
E se sobre elas há luz do sol, nada o abala.
E se sobre elas há luz do sol, nada o abala.
terça-feira, 17 de maio de 2011
quarta-feira, 2 de junho de 2010
O violão é o artista
O violão é um artista,
Sorri com sua boca circular,
Conversa com suas lineares línguas,
Canta com seu vibrar rítmico.
“Não. Ele não é um artista.
É apenas a caricatura da mulher brasileira!”
A mão é música!
Toca as cordas, determina as notas,
Produz o som.
“Não. A mão não é música, nem artista.
Mas é uma pista.”
O ouvido é o mestre.
Possibilita o entendimento, a sintonia, a percepção.
“Não. O ouvido não é o mestre.
É só um complemento,
É o objetivo da canção.”
O homem é o criador.
É a mão, o ouvido. É o artista. O poeta.
“Não. O homem não é música.
Música é também poesia.”
“Não. O homem não é artista.
Artista é o intermediário do sentimento.”
Minto então: o violão é o artista.
É o instrumento.
A natureza.
A criação.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Mistura
Somos de mundos diferentes.
Quem não é?
O ser humano é um mundo.
Cada ser humano
É um mundo.
Um mundo à parte.
Um mundo único.
Suas realidades,
Suas conclusões,
Suas pequenas verdades,
Como diria o poeta. Cada pessoa é uma
E o jeito de cada uma ver o que vê
É único.
Acredito que a Verdade é maior.
É o que está acima.
É o que se vê do céu.
De fora,
De nossos próprios e,
Às vezes, pequenos
Mundos.
Só há uma coisa que une,
Interliga e mistura.
Uma coisa com vários nomes.
Às vezes chama-se Amor.
Outras, amizade,
Outras vezes é tão curto
Que é só uma afinidade.
Mas seja por que nome,
É a energia deste envolvimento
Que compartilha os mundos
E mistura. ...
Sinto-me facilmente misturada.
Os contornos da alma
Fragilizados, repletos de fissuras,
Que permitem que o outro entre
E, às vezes, até interfira
Na batida do meu coração.
Minha alma se confunde
E meu corpo sente.
Minha mente mistura-se
Com a mente de quem me quer,
Ou me ama, ou se liga a mim,
Por amor, desejo, ou identificação.
E assim: invadem-me.
E, no mundo que é só meu,
Que SOU eu,
Não cabe tanto.
O tanto
Que é a emoção do outro,
A natureza do outro...
A batida de outro coração,
Que se mistura no meu,
E perturba...
Tumtum... tumtum... tumtum...
Chamam a isso Ansiedade,
Mas eu sei que é mais.
No meu mundo isso se chama
Mediunidade.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Amor para poeta.
O que é o amor?
É um sentimento apenas?
Uma dor, um lamento,
Uma falta?
Um complemento,
Uma esperança, um sorriso, uma decisão?
É o dedicar-se ao outro?
É escolher alguém para dedicar-se,
Para cultivar o que há de melhor em si mesmo?
Para beijar, abraçar, afagar,
Dengar?
O que é o amor, meu Deus?
Será uma ilusão,
Um desejo inconcretizável,
Uma vã esperança,
De ser cheio?
O que será?
O oculto?
As forças sobrenaturais agindo sobre o homem,
O mistério da vida tomando conta
dos passos do homem?
Uma loucura? Um devaneio?
O que é o amor além de sentimento?
Ou é apenas um pensamento, uma idéia?
Uma vontade, uma obsessão única,
independente do outro?
O que é o amor?
Se existe...
O que é o amor
Senão é a vida mais fácil,
Mais serena, mais simples?
O que é o amor que não abre portas?
Que não acaricia?
...
É a vontade de amar.
E para poeta,
Até vontade de amar,
Já é amor.
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