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sábado, 4 de junho de 2011

O que ele não leva, aumenta


O tempo tudo leva. Arrasta pra dentro de si as trevas que porventura vierem e as venturas que se aventuram sobre a gente, com seu viés pungente de eternidade. Tudo bem. O tempo e sua majestade levam os horrores, algumas lágrimas e outras coisas. Mas e os amores? O que ficam dos amores que o tempo leva? Depois que passam, ainda ficam deles os sabores, às vezes ainda mais açucarados e belos do que foram de verdade. Dos meus, ficam os versos, as palavras que se amontoam de própria vontade, com som e sem compostura.
Não sei se gosto desta coisa do tempo levar, de tudo passar, de despedir-se do que ainda está, porque no futuro não estará, mesmo que ainda esteja agora. Vai passar... Só o tempo. O tempo é amigo do esquecimento. Mas pode também ser mais. Pode ser apenas instrumento de recrudescimento do que fica. E a gente nunca sabe o que fica. Porque o tempo... O tempo leva tudo, quase tudo. Mas o que ele não leva, ele aumenta.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Errar é humano

Só há uma certeza:
Você vai errar.
A cada dia, a cada passo,
Há uma certeza
Em nosso encalço:
O erro é fatal,
Apesar do embaraço.
É o motivo,
E a destreza,
É certo percalço
Do dia-a-dia.
É mais que humano
Mais que provável.
É certo
Como matemática.
Por melhor que seja a intenção
É o dano necessário,
Relicário do coração.
É certeza,
Sobre-humano, sobrenatural,
Como movimento e estática
De pessoas e de momentos.

O perdão é o esquecimento.
E o esquecimento será o perdão?
Terá ele o condão de me libertar
Reconstituindo o filme?

De limpar o cristal,
Reintegrar o quebrado do vidro,
Quebrar as muralhas,
Destruir os abrigos?

E entregar-me os campos desimpedidos
E o céu limpo
E as águas correntes
Restituindo as migalhas?

O esquecimento está no perdão.
Perdoa, então, coração.
A si, a outrem,
Além, aqui,
Ontem e hoje – a semente.

O perdão é o esquecimento.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mensagem

Meu amor, meu alento. Ah, como estou carente do teu tempo, do teu laço premido em meu ser, por fora e por dentro, com a doce constância do bem querer e a terna insistência do suceder dos segundos. Meu mundo é novo e, inteiro, é você.
Não quero desaprender a ser só, mas como é fácil esquecer! Enredada em teus braços, seguida por teu passo, sigo sem prever os buracos ou os percalços. Esqueço como se já não soubesse, como se o novo, de tão novo, o velho fenecesse.
Mas sem resquício algum, o que é mofo, desaparece. Com a esperança dos primórdios tempos de uma vida e o despreparo da iniciativa. Único rastro é uma vaga lembrança, como os cheiros de quando se é criança, que rondam de vez em quando, com alternância e, em segredo, momentaneamente.
É quando o terror me toma a mente, com os horrores e a fumaça do breu. Com os odores do desassossego de outrora. Mas é só memória, é só o infortúnio da inglória caminhada. É só a carência de você de braço dado com o medo de perder-te.