domingo, 7 de agosto de 2011

Big Bang


Algo em morrer, parece bom
Não ser
Desvanecer-se em partículas
Reunir-se, em órbita, à origem
Transcendência

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Paraquedas

O encanto é como purpurina. Apesar do brilho, de textura tão fina, uma coisa tão delicada, tão facilmente pulverizada... Como é fácil desvanecer-se!
O limiar entre o real e o sonho, entre a coragem e o contentamento rasteiro, é indiviso, estreito.
O senso comum e o habitat seguro não conversam com o inesquecível. Pra pular de bung jump não é preciso asas, é preciso peito.
Pra ser feliz é preciso, antes, achar a saída dos labirintos que te reconduzem a si mesmo. Aqueles de que são feitos seres ímpares como os boêmios e os esposados.
Seres antagônicos dotados do mesmo defeito em pontas opostas. Enclausurados nas artimanhas do medo e suas defesas.
E, o ar, só merecem os sonhadores, os incorrigíveis, os apaixonados e soltos.
Paraquedas não se abrem à toa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

NARCISO



Das palavras que falo
Ouvem-se poucas
Minhas idéias são as internas
E não as ditas
Menos ainda, as ouvidas
O ouvinte escolhe
Entre os caminhos
O sentido possível
Aos seus frágeis ouvidos
O diálogo é qual o aprendizado
O que se quis dizer
Às vezes fica perdido
No espaço que separa
Um ser do outro
Na vala que faz, de cada alma
Uma trilha solitária e árdua
Apesar de acompanhada
Na insistente tentativa
De compreender , de alcançar
De aliar-se a um par 
Das conversas, caminhos se abrem
Em escolhê-los com cuidado
E fidelidade, faz-se o diálogo
Mas o alcance total é inviável
Não queira a compreensão integral
Só Deus sabe - e eu
O sentido das palavras que abrem
A estrada por que caminho
A pilastra em que se apóiam os detalhes
Que me conservam indivíduo
Alcançar-me é impossível
Explicar-me, portanto
Inútil, incrível
Das palavras que profiro
Tudo o que vê
São os destinos que dita
Pra seu próprio sentido
Narciso!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Arvoe arvre


Árvore-arve, ar-voe
Voe árvore, como ave
Arvoe arve. Voe
De casca dura
Grandes raízes
Não voa, árvore
Mas a nuvem anestesia
E o que não pode se alivia
Se tem amor
A miragem é companhia
Tudo é passagem
Mas na vontade
O galho que era árvore
Estica em asas
E alça vôo
Só o amor diferencia
Intuição de covardia
E a nuvem que anestesia
Tudo pode e alivia
Tudo chove e alivia
Torna ave, a melodia
E voa alto, em alegria
Por ser amor
Voa a árvore por magia
Com asas de passarinho
Pro seu amor
E o organismo que era outro
Liga-se em ímã
Na energia do puro amor
Voa árvore poesia
Avoe árvore ainda
Comigo arvoe árvore minha
Arvoe arvre
Arvinha minha
Comigo avoe em poesia
Porque é amor
Arvoe árvore maravilha
Que a viagem não é só de ida
Se você for

(Por mim e Marcio R. Lima)

A árvore e o passarinho


Tu andavas por aí, passarinho, com teus penachos empinados e teu andar saltitante, de galho em galho, florindo. Mas, de repente, encantaste-te com cascos gastos e falhas de uma velha e grande árvore, sobre um rochedo distante. Quiseste ficar por ali. Juntaste teus gravetos em ninhos e deliciaste-te sossegado, à sombra dela. Mas, um dia, aconteceu que de tanto enfiar-te nas fendas daquele casco, decidiste não mais voar, quis tornar-te árvore. E a árvore não pôde crer, que tendo você asas, invejasse seus galhos de cascas. Mas, depois que te aninhaste debaixo da árvore velha, teu voar parecia triste. E a árvore rechaçava: o que seria de ti, se os pezinhos que saltitavam, enraizassem? Se de tanto com ela trocar, virassem madeira de árvore? Então, propuseste dormindo, em sono de olhos vidrados que não dormem: - que tal se ela criasse asas? Mas não era possível, bichinho! – cada organismo faz sua viagem seguindo a vontade original, que rege o inalcançável. Então, ficaste passarinho, parado como um objeto manipulado, empoleirado nela, em estática. E, enquanto teu amor durava, tornavas-te parte daquele tronco, como cuco de relógio. Até que num dia bem lindo, uma brisa mais forte bateu na quina de teu bico e ouviste teu amor sussurrando baixinho, no farfalhar das folhas caindo: Amo-te, passarinho. Muito. Parta com tuas asas, serei sempre tua casa. A vontade é que faz possível, uma possibilidade. - E tu, que já sentias o corpinho e asas tesos e sem engrenagem, como um bicho empalhado, entendeste o amor que alcançaras. O encanto de ter-te encantado por uma árvore-árvore, é que aquele era um amor casa, e sempre que voltasses, poderias escarafunchar-te debaixo de sua copa cheia e viva. Não era um amor de ave, não era uma árvore-ave, não era uma arve. Era só uma árvore onde podias ancorar tuas cansadas asas. Então, sacudiste as penas, arrebitaste o corpinho e saltaste. Voaste para o vento e voltou tua cor e teu movimento. Mas teu amor ficou e, de quando em quando, voltavas pros calabouços tão ternos, da árvore que amavas.