terça-feira, 7 de junho de 2011

ESTE É O LUGAR QUE TE CONCEDO


Este é o lugar que te concedo
Veja:
Tem músicas tantas
E mil pensamentos
Cores quentes
Emolientes
A nos enlaçar
Abraça-me por dentro agora
Bem no centro
Onde não há dor
Nem impedimento
É só amor
Doçura
Sentimento
Toca-me com a ponta dos dedos
Senão afunda
A textura é fofa e se move
Qual nuvem no firmamento
Aprecia com a língua
Suavemente
Este é o lugar
Fremente e singular
Que te concedo

sábado, 4 de junho de 2011

Intitulo-me: poeta


Escrevo da seguinte maneira: primeiro, uma coisa a dizer na mente. Uma conclusão, um ponto qualquer. Depois, sento-me, pensamento firme no cerne do que quer sair, e teclo qualquer coisa. E então, as palavras vêm em torrente e se amontoam sozinhas, de própria vontade. E elas são dançarinas, gostam de rima, se organizam pelo som. Então, é assim que se forma a poesia ou qualquer coisa outra que eu escreva. Sinto-me mais um instrumento do que a mentora da formação de meus textos autônomos, praticamente independentes. Aí me perguntam: o que você lê? Quais os poetas que te guiam? Nenhum. Poxa!, leio pouca poesia. Como posso ler poesia, se escrevo poesia? E todos ficam embasbacados e se riem da minha petulância em dizer-me poeta. Uma poeta que não lê os grandes poetas? Eu os leio, e os considero infinitamente melhores que eu. Contudo, escrevo e sinto entre eles e mim, uma ponte. É através do que escrevo que os alcanço. Não sou devota de nenhum, porque escrevo o que sinto, à minha maneira. Leio o que escrevo e admiro minha obra, porque sei que não vem só de mim. Estou mergulhada no mesmo limbo de todos os poetas. E por isso escrevo. Não importa, exatamente, o reconhecimento alheio. O exercício e o movimento do que impulsiona as palavras brincalhonas que pululam no meu ser, como grilos atrevidos e cantores, é parte de mim . É esta a minha devoção para com os grandes mestres. E me rende, até contra a vontade. É anterior e superior à minha autocrítica e ao temor da reprovação ao redor. E é por isso que ouso intitular-me assim: poeta.

O que ele não leva, aumenta


O tempo tudo leva. Arrasta pra dentro de si as trevas que porventura vierem e as venturas que se aventuram sobre a gente, com seu viés pungente de eternidade. Tudo bem. O tempo e sua majestade levam os horrores, algumas lágrimas e outras coisas. Mas e os amores? O que ficam dos amores que o tempo leva? Depois que passam, ainda ficam deles os sabores, às vezes ainda mais açucarados e belos do que foram de verdade. Dos meus, ficam os versos, as palavras que se amontoam de própria vontade, com som e sem compostura.
Não sei se gosto desta coisa do tempo levar, de tudo passar, de despedir-se do que ainda está, porque no futuro não estará, mesmo que ainda esteja agora. Vai passar... Só o tempo. O tempo é amigo do esquecimento. Mas pode também ser mais. Pode ser apenas instrumento de recrudescimento do que fica. E a gente nunca sabe o que fica. Porque o tempo... O tempo leva tudo, quase tudo. Mas o que ele não leva, ele aumenta.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

OLHOS CASTANHOS


Um quarto escuro
Dessa cor são meus olhos
Profundos
Através deles eu converso
E meu assunto
É poesia
Coisas fugidias
Gasosas
Prefiro o abstrato
O universo que comporto
É um absurdo
E me basta
Ignoro a gramática
Se dela extraio
Som mais fácil
Da tua tez pálida, culpada
Não quero nada
Estou, de ti
Anos-luz adiantada 
São meu carrinho de rolimã
Os pés descalços
A mente que levita
Dos filmes que assisto
Guardo os beijos
E as histórias de amor
Ainda que finitas

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Conversa entre Poetas



Fiquei comigo a matutar
Se segredo é essência,
Se a essência às vezes é escondida.
Concluí que não, amigo.
Segredo é desejo,
É intento do indivíduo.
Já essência é mais,
É o que está por trás e sustenta.
Essência é a pegada antiga
Que deu início à trilha.
Essência é o que está no centro,
É o berço, o exílio.
Essência é o pai e a mãe,
O primeiro sorriso,
O primeiro amigo.
Segredo vem com o tempo,
É matiz da malícia,
Artimanha do percurso,
Vício adquirido.
O que diferencia a essência do segredo
Não é só o que significa.
Na essência há o prelúdio.
No segredo, o abismo.
Entre um e outro, o oceano,
Que a intenção é quem dita.