quinta-feira, 22 de abril de 2010

Páscoa

Precisei mudar.
Não porque quis com aquilo que se diz vontade, mas porque quis com algo mais profundo, mais condizente com a essência de Ser, que é a sobrevivência, a necessidade.
Mudo todo dia e sempre, mas mudo mais vezes que outras, e não por querer, -ressalto novamente -, mas porque assim é o mundo, assim é comigo. Este é, aqui, meu assunto.
O que se renova sendo o mesmo, a história temperada de novo enredo, mas que ao final é sempre igual.
Intensa, lúdica, ideal... Será a imaginação clamando por asas? Será o desassossego da alma aprisionada em afazeres, em marasmos?
Ou apenas os deuses traçando roteiros inesperados, em que, sou eu, todo o elenco?
Preciso mudar agora, já.
Não porque queira, haja vista que em mim há apego no que fica, há o conforto de estar.
Mas porque preciso. Dos passos, dos ventos, das novas cores e ares e de fazer dos mesmos lugares, novidade.
Porque só o que nasce será capaz de renovar em mim a vontade, que ora me enchia de vida, mas que agora se esvai.
Parte de mim, e esvazia-me. O que resta é necessidade.
Não há escolha. Com ou sem coragem, é na proa o lugar de quem guia o barco.
Assim, mudam-se os rumos, pra evitar colisão, mas a paisagem, apesar da tempestade, permanece: Água que rodeia! Mas há céu, há borboletas...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Instante

Eu sabia que ia ser difícil. Só não sabia que seria difícil por tanto tempo. Quanta sorte de coisas ocorreram... Todos estes anos... Lágrimas escorrendo, mesmo quando não. Sorrisos também, mas todos com algo a menos. Sabia que seria duro, mas não que durasse tanto.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Areia movediça





Não entendo como foi tudo acabar assim, o que parecia tão quente não ter mais nenhum calor. É estranho também que eu te tenha esquecido tão já. Uma pedra sobre você, agora que já não tenho lágrimas nenhumas. Também não sei porquê. Chorei-as todas em uma semana. Agora já não posso. Já não as posso alcançar. Mergulharam na areia movediça das expectativas não consumadas. E não as olho mais. Assim, não as posso chorar na ausência da lembrança, como se nada mais houvesse, nem o que lembrar. Mas isso é porque a dor cobriu de cal a doçura dos momentos perdidos para que não doam mais. E para que eu possa seguir dona de mim, sem olhar pra trás. Para não dizer que nada lembro, permito-me lembrar a frieza de seus olhos e a dureza de suas palavras a justificar os olhos frios e a partida repentina. Este é o fato desconexo de seus pesadelos: a improvável despedida que sucedeu isenta do seu pesar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O quê

Suco de laranja concentrado
Sem açúcar
Purê de mandioquinha
Lâmpada clarinha,
no abajur
Um ursinho
Filmes gravados
Guardanapos usados
Beterraba ralada
Temperada com limão
Lábios sempre molhados
Cheiro doce de maçã
Chocolate meio amargo
Sorvete “diet”
Cinema atrasado
Direção inusitada
Certeza de nada
Só emoção
Desenhos, palavras
Beijos açucarados
Abraço
Tesão
Latido estridente
Parada minuciosa
Certeza imprudente
Falta amarga
Parte o coração

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Diário




Por que não posso ser como Simone? Sim, posso. Quero registrar meus passos, minha história, perscrutar meus pensamentos, meus devaneios, meu trajeto que vem e vai.
Por que não posso vislumbrar meu desassossego? Meu pestanejar? Os arremedos de minha história, de minha tentativa, de minha caminhada quase sempre solitária?
Quero escrever meus passos, pra depois lembrar. Estudar meus pensamentos, meus pesadelos, desvendar meus repetidos erros e esparsos acertos.
Como Beauvoir, mas nem tanto. Quero usar de enigmas, de encantos, não ser tão clara, tão rasa. Nem ao mesmo tempo, tão detalhista, tão minuciosa.
Prefiro o mistério, os símbolos, as charadas, a conquista à moda antiga, a prosa de Vargas Llosa, as línguas desconhecidas, as linhas em versos, a poesia.