sábado, 8 de janeiro de 2011

Tim-tim! Um brinde


Tim-tim! Um brinde
Espumas que sobem na taça
E que descem na goela
E que pairam nas águas
Tim-Tim! Um brinde
Mais um ano que passa
Outro número que estréia
Na folhinha pendurada
Mas os sonhos são os mesmos
Nas sete ondas puladas
E a espuma da champagne
Parece com esta que vem e vai
Mas a espuma do mar é salgada
E café de paris é doce
Doce como beijo roubado
Tim-tim! Um brinde
Já não lembro mais o que há
O que houve, o que será
Em prece, rogo aos ventos
Aos deuses, ao momento
Em que o ano muda de nome
E tem o condão de renovar
Tim-tim! Um brinde
As lágrimas também são água
Mas não servem pra abençoar
Sorrio então, com olhos secos
Pra receber bênçãos
De Iemanjá
E há tanto branco no escuro
Roupas que, como velas
Iluminam a meia noite
De olhos duros como os meus
Que não querem molhar
Tim-tim! Um brinde

sábado, 11 de dezembro de 2010

PALAVRAS CONTIDAS


Eu sei amar de longe. Não sei quando aprendi. Ou melhor: sei, mas não quero dizer agora. É uma vitória aprender a amar de longe. Acreditar que o pensamento é capaz de se comunicar sem as palavras ditas. Que as palavras podem se materializar sem a fala. Que as palavras se locomovem por ondas e são capazes, mais que as palavras ditas, não só de dizer, mas de tocar, de acender. Palavras estão represadas em mim e, apesar de fazer terapia para dar vazão a elas, elas dóem aqui. Porque são muitas e porque não são apenas as palavras que eu não digo. São também as palavras que eu não ouço. Mas não importa, vou navegar com minha alma sinestésica pelas ondas do pensamento até quem eu quero e despejá-las, letrinha por letrinha. E, com todas as letras tocarei e reverei bem de perto aqueles a quem quero dizer, a quem quero explicar, a quem quero bem, quero mal, quero não querer. Bem de perto, à medida que derramarei sobre ouvidos distantes e despreparados, todas as palavras contidas, vou respirar um pouco mais fundo, sentir um cheiro, fazer um vento. E quem sabe nesta hora não venha, com o ar que inspirarei, as palavras que não ouvi, que tanto me dóem e que talvez jamais eu ouça, a não ser assim: se eu for buscá-las.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Deixe que chova aqui dentro!


Quando chove no verão, depois de toda aquela sensação de sufocamento e calor, os poros inundados de suor, a cabeça rodando devagar, slow motion, então começa a ventar. E é um vento maravilhoso, refrescante, apesar de nada comedido, quase agressivo, eufórico. Mas é um vento de frescor, de alegria, de fôlego. É o vento da chuva que se aproxima e que levanta a poeira e traz pras narinas o cheiro de terra molhada que a quase todos agrada. Então, aquela sensação de calor vai sendo tomada por outra, tão bem vinda, reconfortante, almejada. Alguém se lembra de fechar as janelas, mas para quê? É só água! E seca, e evapora, da mesma maneira que a água salgada depositada na pele encrudesce: seca e miúda, na tez aliviada. Deixem as janelas abertas! E pinga, pinga dentro da casa. A chuva também agrada às paredes esturricadas, ao chão trincado pelo calor autoritário, dominador. E então venta, o vento de chuva macia, que percorre o imóvel, atravessa as janelas em corrente. Há pingos pelos cômodos e pessoas aliviadas, debruçadas nas janelas. Está molhando aqui dentro, alguém grita. Mas deixe, deixe que molhe! A chuva é bem vinda, e logo passa, logo seca. É só água, que nada estraga, só alivia.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

CARRANCA

Qual a dimensão de uma primeira impressão?
De uma postura ereta ou de uma boca arreganhada ou de ombros tensos, curvados pra frente?
De uma bunda empinada ou um nariz empertigado?
Qual a importância dos lábios cerrados ou da amistosidade amplificada, ao primeiro contato?
Por que o retrato é tão valioso neste mundo tão vago?
Por que quem vê se deixa iludir tão facilmente, por um personagem montado?
A carranca é a escultura feia que ilustra o barco, e que afasta as maldições de seres indesejados.
Quem é de bem, tem na carranca um escudo, uma blindagem.
No mundo primitivo era de se ver além, não apenas com os olhos.
A carranca era uma proteção, com sua cara feia e misturada de criaturas várias. Era a cara do bem na feiúra encruada e talhada em madeira.
Ter na face uma face medonha não quer dizer que no espírito não haja uma benção, um infinito de benignidades a serem compartilhadas.
A carranca do meu barco afasta o que é mau e aquele que se deixa cair na cilada da receptividade oca, coberta de inverdade.
Quem vê além sabe que, atrás da careta e da postura ereta, da aparente opulência de quem precisa manter-se reta, há muito mais que a beleza da carne.
Há um espírito, uma alma, duas palmas abertas.
Há a pérola encoberta na concha fechada.
E a graça está em guardá-la e ver quem é capaz de achar, dentro da concha de lábios colados, a jóia que brilha.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

LARI




Lari
Enquanto um nome é bússola
O outro é risada
É a brisa brincalhona
Que sobe a saia
Enquanto num nome a infância
N’outro, a alegria de andar solta
Dona de mim, ou quase
Enquanto um nome é o chão
O outro é o ar
O sonho de voar
Quase Alcançar o liame
Em parte é loucura, mas não
Somente a arte de se aproximar
E deixar falar
O coração
Lari
Me faz rir
Me faz sentir
Livre pra seguir
Simplesmente em frente
O outro nome faz pensar
No que deixei passar
No que podia ter sido
Mas, quê fazer, se meu destino
É de alma e sentidos
De uma risada encaracolada
Em cachos divertidos
Malucos como viver assim
Porque é assim que é
E gargalhar...
Lari
É o nome que escolhi
Porque escolhi voar
E assim tem sido
Apesar e enfim
E assim será
Até quando?
Lari ar, Lari água
Lari horizonte
“Ad eternum” enquanto
O sol deitar
No mar.