quarta-feira, 9 de março de 2011

Horizontes de silêncio

Nas cidades pequenas
Não se perde o horizonte
A estrada se alonga e vai
Até onde o sol se põe
E a dois seres que se cruzam
É possível o silêncio
Que dialoga com o íntimo
Do encontro que nasce
Apesar do desconhecido
Porque o vértice é fugaz
Entre dois seres lado a lado
Há o que foge e o que fica
O que vai e o que corre atrás
E assim se constrói o universo do encontro
Pois apesar do conexo
Há o indivíduo complexo
Que se quer deixar estar como está:
Apesar do encontro: Indivíduo
Mas adiante algo nos liga
A outro que já não está, mas que fica
Num gesto, ou palavra
No medo, ou numa lágrima,
Num dedo que se insinua no meio da palma
Ou nos lábios que se unem
Bochechas flácidas
A assoviar...
E as palavras novas que são ditas
Carregam em si nostalgia
De outros encontros
Horizontes esquecidos
Que se reanunciam

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Confesse


O sentimento que se confessa
Nem sempre se manifesta
Às vezes, declará-lo
É o instrumento único
Pelo qual se externa
Mas está ali
E como todo o início
É a raiz, o alicerce
Pode ser discreto
Quase imperceptível
Mas enquanto tudo gira
Ele fica
E em torno há coisas que crescem
Coisas que fenecem
Coisas que se quebram
Coisas que não prosseguem
Por quê?
Quem irá saber?
Se já se esqueceu
Da confissão inicial
Da declaração motriz
Para que se compreendesse
O mistério, o engenho
O mecanismo que rege
O ser que nela se ergueu?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Tudo o que eu sempre quis


quando aquilo que eu sempre quis
me alcança
minh'alma foge
não quer estar aprisionada
nem no amor, nem em nada
e tudo o que eu tanto peço, passa
na verdade, se sou feliz 
na infelisciência de me saber só
é só porque a solidão
é a porta aberta pro acaso
que ora me conduz, ora me seduz
ora me abandona à própria sorte
que sorte?
- coincidências não existem -
assim como não acabam 
a cada novo achado
assim como não sucumbem 
à ilusão alheia
e não bloqueiam a ocorrência
de outras coincidências

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A cor dos meus sonhos



Vou me atirar do precipício do seu beijo
E mergulhar no mar
De cor azul, como seus olhos
Ou será verde?
- Já não sei mais -
Mas como é possível?
Se tudo o que faço
É lembrar?
Se não durante o dia
À noite, em sonho
Em que nada é ilha
Em tudo há ponte.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Tim-tim! Um brinde


Tim-tim! Um brinde
Espumas que sobem na taça
E que descem na goela
E que pairam nas águas
Tim-Tim! Um brinde
Mais um ano que passa
Outro número que estréia
Na folhinha pendurada
Mas os sonhos são os mesmos
Nas sete ondas puladas
E a espuma da champagne
Parece com esta que vem e vai
Mas a espuma do mar é salgada
E café de paris é doce
Doce como beijo roubado
Tim-tim! Um brinde
Já não lembro mais o que há
O que houve, o que será
Em prece, rogo aos ventos
Aos deuses, ao momento
Em que o ano muda de nome
E tem o condão de renovar
Tim-tim! Um brinde
As lágrimas também são água
Mas não servem pra abençoar
Sorrio então, com olhos secos
Pra receber bênçãos
De Iemanjá
E há tanto branco no escuro
Roupas que, como velas
Iluminam a meia noite
De olhos duros como os meus
Que não querem molhar
Tim-tim! Um brinde