quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O certo e o errado



O certo e o errado. São fixos. Dois pilares. Ninguém pode saber se optar por um ou por outro é o que trará a felicidade, mas todo mundo sabe o que é certo, e o que é errado. É a voz da consciência. É um senso comum, mas, principalmente, superior às circunstâncias do humano. É a regra de conduta que, acima das justificativas inerentes a cada escolha do homem, estirpa o bem do mal. Bem e mal que, como o certo e o errado, são fixos. Não se movimentam de acordo com as circunstâncias, com os poréns de cada um, com os motivos subjetivos de cada ser, que opta pelo sim ou pelo não. Por isso, o que é certo e o que é errado, não depende de prisma. É estático e universal. O que se movimenta são as peculiaridades. Cada qual tem seus motivos, suas justificativas, seu passado, contribuinte ou cúmplice da escolha que fez. E estes fatores não deturpam o certo e o errado, apenas os humanizam. Os tornam passíveis de senãos e por causas capazes de conferir ao certo e ao errado uma aparência de simbiose, que os fazem assemelhar-se ao ser sujeito a esta consciência universal. O certo e o errado são a voz de Deus na consciência do homem. São perfeitos, intactos. Mas, à medida em que se tornam parte do homem, que opta por um deles e se justifica com sua própria história, com o meio em que está imerso, com os sentimentos inexplicáveis que nele se misturam, tomam a feição do homem e se tornam, aparentemente, passíveis de ponderação. Mas não são. O que é certo, é certo. O que é errado, é errado. E, apesar das circunstâncias que poderiam justificá-los, continuam basilares. As justificativas são apenas circunstâncias oriundas da cultura, dos costumes. Da vida humana e de suas confusões e misturas. Mas, por mais fortes que sejam, são apenas a voz do homem pretendendo, em descabido argumento e frágil escusa, abafar a voz de Deus.

Somos todos inocentes

Todos têm seus argumentos,
Seus motivos,
Seus lamentos.
Todos têm
Um porquê,
Um mas, um além de.
Todos têm uma dor,
Um medo,
Uma falta.
Um trauma passado,
Uma marca.
Todos têm
Uma mãe que falha
E uma infância amarga
Em algum estágio de criança.
Assim, todos têm
Motivos pra ser fracos, ou,
Sendo fortes,
Pra atemorizar.
No fundo é assim,
Todo homem é
Um poço de detalhes
Propensos a justificar.
Somos todos inocentes Com nossas imperfeições,
Reticências
E itinerantes carências.
Todos somos humanos,
Passíveis de erro,
De engano.
Somos todos inocentes
E parte de um plano
Que inclui erros e acertos,
Travessões, acentos,
Laterais, próprios
Ou anexos.
Todos têm seus acontecimentos
A justificar o lamento,
O desvio,
O nascimento.
Todos têm seu enduro
Pra atravessar.
E destes momentos é que vêm
As circunstâncias possíveis
De nos inocentar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Teclas

Escrevo apertado demais para canetas grossas. Gosto das Bics. Mas, para ser sincera, há tempos me machuco com todas. Aperto demais entre os dedos, e no papel. E dói. Falta de hábito. Hoje em dia, escrevo mais teclando. Como a maioria no mundo. Mas continuo achando mais charmoso escrever à mão. Porque a letra também revela a emoção. Às vezes as idéias vêm tão lépidas, que a letra treme, garrancheia. Pra que não se perca o miolo, a essência do poema, do pensamento. Adoro preencher um caderno inteirinho. Sem pular uma folha sequer, sem deixar um espacinho em branco. Preenchendo tudo com palavras. Com letras, de preferência, perfeitas. Batendo em ambos os paralelos da linha, como num caderno de caligrafia. Da mesma forma, gosto de gastar as canetas até o fim. Sinto prazer em ver uma caneta que cumpriu totalmente a sua missão. Escrevendo até que nenhuma gota de tinta sobrasse inútil. A carga vazia. Hoje, eu preferiria um caderno de folhas brancas e largas. Fáceis de manusear e de preencher fartamente. Mas escrever à mão dói ainda mais.

Terceiro Olho



Um terceiro olho, pra ver além das aparências. Um teste pr’um mundo que, cada vez mais, se oculta, sob as vestes, sob as frases, sob a pressa. Mas, e se, com ele, se pudesse adentrar no obscuro? Proteger-se dos falsos sorrisos, do auto-marketing promíscuo? O que seria de nós? O que veríamos? Bocas carcomidas, desdentadas, fartas de chagas, por causa do veneno das palavras, carregadas de mal e inveja? Corpos sofridos, envelhecidos, enegrecidos de fumaça e cachaça? Carcaças ocas, desleixadas, enfraquecidas pela falta de emprego dos músculos e membros? Cérebro diminuído, em tamanho e funções, porque não organiza, não processa, não limpa o que contempla e o que deixa de contemplar? Terceiro olho pra quê? Deixe como está.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Brumas vermelhas



Horizonte de deserto:
Brumas vermelhas.
Paisagem sibilante,
Quase uma miragem,
Sobe a poeira.
É a terra esturricada que transpira
Em moléculas aéreas.
A vista é entorpecida
Pelo ar denso.
Nenhuma folha é mexida
E nenhuma outra cor cintila.
Reina o vermelho.
De olhar, à distância, já é quente.
O sol estende-se pelo chão,
Concretamente,
Num terreno rubro-intenso.
Paira a cor vermelha
Do céu à terra.
A alegoria do inferno, a cor, desenha.
Mas os personagens são caboclos
E a música-tema
É o assobio do ar que não venta
E da vida que não se movimenta,
Apesar do suor que pinga
E da criança que lamenta.
Sobe a poeira
E sob ela há insistência
Dos dentes no sorriso do caboclo,
Querendo ser brancos,
Sob as brumas da poeira vermelha.
Sobe, sem cessar, a terra,
E sua cor é poeira.
Tinge a pele morena,
Enrugada pelo sol,
A espuma da água que lava
A roupa pesada do labor,
A lágrima que rola, grossa de pó,
E como miragem, desfaz-se,
Reincorpora-se na cor,
Torna à paisagem encoberta
De vermelho e calor.