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domingo, 30 de maio de 2010

Tanta água

Em tudo, a água. No meu pensamento, no sentimento, no tempo, no corpo, na alma. Preciso da fluidez, da substância, da condução da água. Nos meus poemas e nas minhas falas. Nas relações ou nas finalizações. No trabalho ou na casa. São gotas que pingam aos poucos. Ou correntes que levam tudo. Chuva que soa doce, na fresta da janela larga. Compasso suave de água, que segue cadenciada. Fluindo em córregos, ou reunindo-se em lagos. A água dos argumentos sempre em movimento. A água que é alimento da alma enturvada, esvaída em lágrima. A água que une a alma solitária às outras, mergulhadas no âmbar único de todas as almas. A água que lava o corpo, que revela o fosco, que rebrilha o brio, que preenche o oco. Que molha, refresca e toma. Revela e torna. A água de meus beijos. De meus pesadelos. Dos lagos e poças. Da memória vaga. Do útero. Do citoplasma. A água do agora e do faz tempo. A água que dá cor à Terra. Que está fora e dentro. Que é azul e vida. Enlace entre o que fica e o que vai. Em tudo, a água. Em que se nada e se nasce. A qual se bebe e se chora. A que molha e lava. A que entra e sai. Na umidade da água, a fertilidade. O melhor encaixe. O molde flexível que se adapta. Os peixes coloridos. O barulho da paz.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Lago castanho


Um lago à frente da janela
Caminho a seu encontro
Nele boto os dedos dos pés
Estremecidos pelo gelado da água
Depois os pés inteiros, arrepiados, fugidios
Sinto um calafrio atrás das orelhas
Começo a andar
Os calcanhares mergulhados
Observo a cor de barro
À medida que dou meus passos, a terra espalha
Dilui na água parada do lago ancorado na montanha
Expondo sua cor castanha e brilhante
Não é, a água, transparente
É autêntica,
Barro e alga e verde
E folhas e galhos imersos
Todos componentes e anversos
Do profundo teor de um universo singular
Caminho até a água alcançar os joelhos
Sinto os pêlos eriçados no corpo
A barra das calças encharcadas
E em minh’alma cria-se a expectativa da completa imersão
Da descoberta de uma nova dimensão
Que o mergulho total trará
Mas apesar de seguir em frente
Passo após passo à espera
De sensações extremas na pele
Nada mais se altera
Segue letárgica a empreitada
Vislumbro a outra margem do lago
Cada vez mais colada
A cada instante, o outro lado da montanha
Mais se aproxima de meus passos
E o entusiasmo do mergulho inteiro
De todo meu corpo e cabelos
Não se realiza
O lago é raso
Sem segredos, magia
Atravessei-o em estreitos passos
E as revelações que ansiava
Em passadas ensopadas e curtas
Não vieram, abstiveram-se
Porque o castanho daquelas águas
Não o era porque eram fundas
Mas porque eram rasas e com poucas passadas
Todo o submerso mostrava as caras
Porque era pouco
Não era fundo.