segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

UM POUCO DE NADA

Um pouco de nada, às vezes é tudo.
Um pouco de vazio pra perceber de verdade quais são os sentimentos e o estado de espírito.
Sem esse fundo, esse piso, a gente só imagina o que sente. Saber mesmo, a gente só sabe se se enclausura consigo por um tempo, sem declarações, sem companhia, sem interferência.
E então, gestos e perfumes que eu julgava perdidos, vêm pra mim e me rondam, auras tão densas quanto corpos, e respiram no meu ouvido frrrruuuu - eu sinto o vento e o calor, uma brisa de verão na minha nuca, um abraço perfeito no meu ser inteiro.
Mas não é só isso. Debaixo de tudo, descubro meus olhos baixos - olhinhos de esquilo - e minh’alma se deita, cansada e encharcada. Encosta-se nas paredes, lânguida e plácida. E eu me ponho a contemplá-la, e penso que ela é tão bonita...
Quando ficamos a sós, eu olho para ela e ela me ignora. Não quer mais ceder aos meus caprichos e conveniências, às minhas ignóbeis obrigações. Vira-me a cara e finalmente se sente à vontade: meu rosto sem sorriso.
Então nos estranhamos um pouco: por que ela não é tão colorida, por que ela se esgueira? porque ela não me acolhe e me convida pra um passeio branco e pacífico? - ela aprecia os vales e as florestas, gosta de se camuflar entre as folhas, chover com as nuvens,
Vive molhada.
Mas depois de um tempo com ela, eu já não a rejeito. Passo a apreciar seus cinzas e marrons e penteio com os dedos sua matéria de sombras: uma textura de clara de ovo, só que escura.
E então as lembranças retornam, fincam o pé no meu entorno e pronto! Lá está o meu mundo.
Todos os meus temores e desejos numa valsa. Minh’alma no meio.
Eu e minhas vesículas vazias, imperfeições globulares onde cabem ternuras de antigamente e esperanças perdidas.
O nada nos devolve uma à outra. E a realidade é bonita. É o que de mais bonito a gente pode ter.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Coisas pequeninas

Coisas pequeninas
Tijolinhos
Gravetos
Cílios
Quinquilharias com que se fazem ninhos
Coisas pequeninas
Seus lábios
Uma mordida
Um assovio
Gestos
Sobrancelhas
Beijos
Coisas pequeninas
Cheiros
Passos
Hálito
Coisas pequeninas
Como o vento
O tempo
O mar
Coisas que ficam
Cores
Voltas
Caras
Minúcias desensaiadas
Roupas
Dedos
Notas
Coisas pequeninas que escapam
Imperceptíveis
Incontroláveis
Marcas
Coisas pequeninas
Uma piscada
Hábitos
Pontualidade ou atraso
Unhas
Punhos
Anéis
Coisas sem porquê
Desmedidas
Coisas démodé
Poses
Bicos
Coisas de você

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

amor feijoada

está tudo estragado
depois que você passou a corda no meu pescoço
e laçou minhas pernas
eu que era um novilho ingênuo
e trotava sem medo -
algum ingrediente azedou
e fez de nós um mexidão indigesto e mal cheiroso
está tudo estragado
o cozido já não presta
tornamo-nos asquerosos pedaços de animal pululando na panela fumegante
e um pedaço ou outro da gente
se conecta por pontes de gordura
e se beija
mas está tudo estragado
os pedaços já se perderam
e não se sabe mais se esta orelha é sua
se aquele rabo é meu
nossas línguas ferventam juntas
e nossas fibras se confundem
tornamo-nos uma imensa feijoada azeda
numa panela de barro velho
prestes a espatifar no piso de vermelhão

Neblinas de Liverpool



Você precisa do sonho porque o sonho é esta neblina que cobre o horizonte longínquo e exige que a gente aperte os olhos pra enxergar mesmo o que está perto, - ainda que parcialmente e faltando peças, como num quebra-cabeças em que você pode inventar a seu bel prazer o encaixe perfeito. O sonho é esta nuvem que escurece o lugar em pleno dia, esta névoa em volta da torre que deixa o cenário com um romântico ar londrino, antigo e polido, repleto de figuras vivas que você só concebia no papel: soldadinhos eretos sincronizados, ônibus de dois andares, nuvens ao redor de um enorme relógio, uma rainha, Liverpool. Você precisa dos sonhos cinza-claro pra tapar o amarelo que brilha soberano sobre a tua vida cheia de vida, de gente, de agenda e rotina. Você precisa do sonho e por isso se deita sobre Sargent Pepper’s comigo e fecha os olhos. Adormece envolto no vapor da comida e neblina de Londres seu cubículo suburbano, refugiando-se de si mesmo, um pouco John Lennon: frágil e agressivo. Você precisa do sonho e por isso me abraça como quem se aconchega no vazio e se enlaça nas brumas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CERTAS COISAS

Certas coisas eu só ouso sonhar

Certas coisas, aventuras
eu só ouso voar
Certas coisas, loucuras
eu só ouso atirar
pro lado das doçuras que ouço
e não ouso provar
Certas coisas miúdas têm força
de arremessar
Certas coisas, fissuras
são altas
certas coisas, alturas
são falsas
- eu não ouso saltar
Certas coisas, birutas
são curtas
Certas coisas, funduras
são ocas
Certas coisas, ternuras
certas coisas, canduras
certas coisas, brochuras
eu só ouso dobrar
a quina de cima da página
pra não deletar
Certas coisas, criaturas