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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Do que as poesias são feitas


Poesias são qual sonhos
feitas de pedaços, morangos, cremes, assoalho
brincadeiras de correr no escuro
Não tem lógica, nem sequência
um filme de Glauber Rocha, um clipe de música
Poesia tem nuances tantos
e curvas
cores opacas e ruas que nunca se viu
São como sonhos em que se mergulha de roupa e tudo
Nelas se flutua, afunda, trepa
com dois ou mais, ou por arestas desconhecidas
É uma loucura bem-vinda
uma tela de Picasso, um jardim de mato alto
Uma noite de lua na floresta
sozinho

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Neblinas de Liverpool



Você precisa do sonho porque o sonho é esta neblina que cobre o horizonte longínquo e exige que a gente aperte os olhos pra enxergar mesmo o que está perto, - ainda que parcialmente e faltando peças, como num quebra-cabeças em que você pode inventar a seu bel prazer o encaixe perfeito. O sonho é esta nuvem que escurece o lugar em pleno dia, esta névoa em volta da torre que deixa o cenário com um romântico ar londrino, antigo e polido, repleto de figuras vivas que você só concebia no papel: soldadinhos eretos sincronizados, ônibus de dois andares, nuvens ao redor de um enorme relógio, uma rainha, Liverpool. Você precisa dos sonhos cinza-claro pra tapar o amarelo que brilha soberano sobre a tua vida cheia de vida, de gente, de agenda e rotina. Você precisa do sonho e por isso se deita sobre Sargent Pepper’s comigo e fecha os olhos. Adormece envolto no vapor da comida e neblina de Londres seu cubículo suburbano, refugiando-se de si mesmo, um pouco John Lennon: frágil e agressivo. Você precisa do sonho e por isso me abraça como quem se aconchega no vazio e se enlaça nas brumas.