quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Deixe que chova aqui dentro!


Quando chove no verão, depois de toda aquela sensação de sufocamento e calor, os poros inundados de suor, a cabeça rodando devagar, slow motion, então começa a ventar. E é um vento maravilhoso, refrescante, apesar de nada comedido, quase agressivo, eufórico. Mas é um vento de frescor, de alegria, de fôlego. É o vento da chuva que se aproxima e que levanta a poeira e traz pras narinas o cheiro de terra molhada que a quase todos agrada. Então, aquela sensação de calor vai sendo tomada por outra, tão bem vinda, reconfortante, almejada. Alguém se lembra de fechar as janelas, mas para quê? É só água! E seca, e evapora, da mesma maneira que a água salgada depositada na pele encrudesce: seca e miúda, na tez aliviada. Deixem as janelas abertas! E pinga, pinga dentro da casa. A chuva também agrada às paredes esturricadas, ao chão trincado pelo calor autoritário, dominador. E então venta, o vento de chuva macia, que percorre o imóvel, atravessa as janelas em corrente. Há pingos pelos cômodos e pessoas aliviadas, debruçadas nas janelas. Está molhando aqui dentro, alguém grita. Mas deixe, deixe que molhe! A chuva é bem vinda, e logo passa, logo seca. É só água, que nada estraga, só alivia.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

CARRANCA

Qual a dimensão de uma primeira impressão?
De uma postura ereta ou de uma boca arreganhada ou de ombros tensos, curvados pra frente?
De uma bunda empinada ou um nariz empertigado?
Qual a importância dos lábios cerrados ou da amistosidade amplificada, ao primeiro contato?
Por que o retrato é tão valioso neste mundo tão vago?
Por que quem vê se deixa iludir tão facilmente, por um personagem montado?
A carranca é a escultura feia que ilustra o barco, e que afasta as maldições de seres indesejados.
Quem é de bem, tem na carranca um escudo, uma blindagem.
No mundo primitivo era de se ver além, não apenas com os olhos.
A carranca era uma proteção, com sua cara feia e misturada de criaturas várias. Era a cara do bem na feiúra encruada e talhada em madeira.
Ter na face uma face medonha não quer dizer que no espírito não haja uma benção, um infinito de benignidades a serem compartilhadas.
A carranca do meu barco afasta o que é mau e aquele que se deixa cair na cilada da receptividade oca, coberta de inverdade.
Quem vê além sabe que, atrás da careta e da postura ereta, da aparente opulência de quem precisa manter-se reta, há muito mais que a beleza da carne.
Há um espírito, uma alma, duas palmas abertas.
Há a pérola encoberta na concha fechada.
E a graça está em guardá-la e ver quem é capaz de achar, dentro da concha de lábios colados, a jóia que brilha.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

LARI




Lari
Enquanto um nome é bússola
O outro é risada
É a brisa brincalhona
Que sobe a saia
Enquanto num nome a infância
N’outro, a alegria de andar solta
Dona de mim, ou quase
Enquanto um nome é o chão
O outro é o ar
O sonho de voar
Quase Alcançar o liame
Em parte é loucura, mas não
Somente a arte de se aproximar
E deixar falar
O coração
Lari
Me faz rir
Me faz sentir
Livre pra seguir
Simplesmente em frente
O outro nome faz pensar
No que deixei passar
No que podia ter sido
Mas, quê fazer, se meu destino
É de alma e sentidos
De uma risada encaracolada
Em cachos divertidos
Malucos como viver assim
Porque é assim que é
E gargalhar...
Lari
É o nome que escolhi
Porque escolhi voar
E assim tem sido
Apesar e enfim
E assim será
Até quando?
Lari ar, Lari água
Lari horizonte
“Ad eternum” enquanto
O sol deitar
No mar.

domingo, 26 de setembro de 2010

Massa de modelar

De que matéria é feito, você?
Massa de modelar toma a forma que a gente quer.
Pode ser circular, pode ser quadrada,
Posso arrancar um pedaço ou grudar um bocado.
Posso entortar pra direita, pra esquerda,
Agrupar cores e objetos vários.
Massa de modelar é uma boa matéria
Pra compor as pessoas.
Não fere, não parte.
E se parte, não é com dor,
Mas com novidade.
Tem de toda cor e o cheiro é nostálgico.
Lembra a pré-escola
E, do colégio, o pátio,
Que cheirava à lancheira.
(Recreio de criança tem cheiro de lancheira,
De suco guardado na garrafinha térmica
E lanche embrulhado no guardanapo.)
É incrível o que se pode fazer
Com massa de modelar!
A gente pode esfarelar de tanto amassar,
Pode enrolar com as palmas das mãos
Até que todas se tornem de uma cor só.
Massa de modelar é uma matéria boa
Pra moldar a pessoa.
Não sei porque esta pele
E por baixo dela, a carne,
Os ossos, as veias,
A alma, a consciência.
De que matéria você é feito?
Massa de modelar não requer ciência,
Não requer preparo, nem dom.
Qualquer criança é capaz de dar-lhe vida
E depois outra vida
Qualquer vida que seja,
Mesmo já sem cor.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O meu "Caminho", explicando um pouquinho



Explicando um pouquinho:
A gente dorme em pousada,
Ou casa de morador.
A gente come na estrada
Ou onde houver uma sombra,
Um tiquim de água, um mijador.
Ou, todo matinho é banheiro,
Na hora do apuro.
Mas não se escandalize,
Que, apesar da poeira,
A gente é limpinho:
Leva sempre um saquinho.
Raça de peregrino:
De Tambaú à Aparecida.
Terço pendurado na mochila.
Dedos dos pés vermelhos, inchados,
Mas vale o trabalho:
É paz na cabeça, paisagem na lembrança
E, no encalço de Nossa Senhora,
O resgate da esperança.
E uma siriema atravessou calminha o caminho.
E um maluco-beleza,
Com sua bike-casa passou,
Com um cachorrinho.
Com ele, aprendemos mais uma:
O golpe do miojo:
Que enche o estômago do andarilho,
Que apela pro coração mole
De um que lhe acolhe.
Vários tipos de passarinhos,
Coloridos, brincalhões.
João de barro e a casinha bem feita,
Que fez pra sua passarinha.
E um toc-toc desconhecido:
É pica-pau que se mostra
E ‘avoa’ enquanto passo
Com enfoque pra seu penacho vermelho.
Que surpresa! do desenho direto pra meu roteiro.
Tem gente que faz de moto, todo equipado.
Tem gente que faz com alguém do lado,
Tem gente que faz sozinho,
Tem aquela que faz com o namorado,
E aquele que faz com a “patroa” na garupa.
Tem gente que faz com bicicleta
E tem gente que é só Deus na frente,
Nossa Senhora na curva.
Tem gente que faz pra agradecer,
Gente que o objetivo deturpa.
E gente que faz pela fé,
Pela saúde de alguém, ou pela sua.
Gente que faz pra pedir,
Ou apenas por amor à luta.
Em tudo tem um porquê,
Mas o sentido, na verdade,
É alcançar a imagem,
Beijar os pés da santa.
Tem gente que fala em vão
Seu nome sagrado.
Mas põe a mão no coração! –
Levantar em vão é pecado!
Tem lugar que simplesmente não passa carro
E um barulho de água ao longe, quase sempre.
Aqui pertinho de um barranco escorre...
De onde vem esta fonte?
Quando a subida é pesada, respira...
Que tem mais adiante.
Mas não se apoquente, siga.
É a Santa na frente.
A batida repica, o coração é na boca,
Mas entrega, então, em intenção,
Esse esforço imenso.
Deus é supremo e cuida
E tem uma setinha amarela por todo o caminho,
Que orienta o peregrino quando está perdido.
A setinha o guia, a fé aumenta.
Mas tem que fazer à vontade,
Que o objetivo não é chegar logo, mas ir.
Se rápido andares, perderás as paradas,
As grutinhas na estrada,
A chance de sentar um pouco
Num banquinho debaixo d’árvore.
Quando o que restar da subida
For maior que suas forças,
Pare e olhe pra baixo.
Aprecie de onde você está
O que você deixou pra trás.
E na hora em que o desânimo domina,
A esplêndida natureza te reanima,
Pois quanto mais alto o morro,
Mais a paisagem é bonita.
E na dificuldade maior,
A vista é quase miragem,
Ou como vista da aeronave.
Aproveite, então, a oportunidade,
Pra voar mais um pouco.
Estende a mão pra Ele,
Agradece, em sussuro, pra Ele ouvir,
Pois Ele está bem aí em cima.