quarta-feira, 8 de outubro de 2014

o amanhecer

eu jamais poderia fazer o que faço no escuro
eu jamais poderia usar a noite, como uso o dia
eu preciso da luz do amanhecer
ver renascer a vida
todo novo dia

é bom quando amanhece
quando apesar de tudo, o sol nasce outra vez
pra se acreditar de novo
ter esperança de novo
ler, escrever, cantar
sonhos

essa luz, sabe
que vem do sol
deixa as coisas coloridas
a noite no passado
vê-se o mal de outro prisma.
amanhecer, em si já é uma alegria.

e ao mesmo tempo, a brisa nova que nasce
oferece uma folha em branco, limpinha
- ah se eu pudesse viver só esse dia hoje
e nada viesse escurecer minha vida
a não ser a noite.
escrever deslizando...

moda que deturpa até a escrita em si
quem escreve tropeça, não desliza
quem escreve encasqueta
com o fonema que a letra desperta
enrosca no sentido
embrenha na tacitura da rima.
quem escreve queria
levar a vida na boa
mas delira na estrofe imagética
vê personagens na esquina.
embebeda-se no boteco mais perto
só pra trombar com o complexo
e ter assunto pra uma linha
ou um soneto.

quem escreve não desliza - quem dera!
A vida é muito grave e sisuda
Leva as pessoas às vezes
E ainda cobra obrigadas, sorrisos.

Comigo não, ingrata!!
Morro de raiva
Praguejo cada lágrima, enfureço.

Não tenho etiquetas
Nem boa política
Em despedidas

Se te finges de besta
Insulto em N línguas
Blasfemo

De nada me valem justificativas
Frases feitas.
Não acredito.

vamu junto

vamu junto!
você pensa que é fácil, mas não
: às vezes é preciso apertar o passo
às vezes é preciso perder a pressa
às vezes o tempo do outro acelera
às vezes se perde o seu tempo

vamu junto, colega!
quase um dilema
nessa dança em que o ritmo alterna
e o piso sacoleja
é difícil acertar o passo
encaixar o momento

vamu junto! ele disse um dia
e a ela o convite soava
como coisa nova, moderna
mas não!
o mesmo desafio de sempre
com letra menos brega

vamu junto!
como é difícil
dar a mão, o braço, o mundo
pra que outro siga consigo
num passo compassado
num sonho dividido

vamu junto, meu amigo
pega esse atalho
no exato instante
em que se laça a fita
de encantos casados
e vida vivida.

não sei mais falar de amor

falar de amor
eu não sei mais
não sei mais o que é
em quantos se divide
e se é ainda aquele de antes
inadiável
improrrogável
intransferível

não sei mais dessas coisas
porque o amor
essa água que cai de um cascalho alto sobre os ombros
(com a força de uma torrente de água
em cachoeira véu de noiva incrustada em montanha virgem)
pode ser tantos...

eu sabia dele
podia identificá-lo com o corpo
com a alma
com o gosto
com a tara

hoje não
só escrevo o amor
que amor? - duvido
que amor? divido.

aquele amor que toca à distância
inebria os sentidos
e alcança
ainda que ausente de palavras
ainda que ausente inteiramente
se foi com as certeza do ontem
é só fuligem

mas existem outros
cheios de medo, de dedos
vazios de devastação
: irreconhecíveis.